Selva

4 jul

Ser amável não é amar.

Eu queria ter descoberto isso antes de aprender a usar o saca-rolhas. O vinho teria outro sabor.

Você se lembra de quando me conheceu? Mentiria se dissesse que sim. Porque quando eu me apresentei, você não estava mais lá. Quando eu me despi e mostrei todas as minhas tatuagens, cicatrizes, medos e celulites – que é difícil não enxergar como defeito – você estava ocupado demais montando um quebra-cabeça.

Ainda que eu tenha te pedido para não ter medo dos meus medos e você tenha me garantido que não me machucaria. Como esperar isso de alguém que não tira a arma do bolso? Você atirou em mim. Fugiu sem prestar socorro.

O tempo em que fiquei desfalecida e o meu coração ameaçou não voltar. Eu não sentia nada. Isso foi horrível. Ainda é. Não é a primeira vez que eu afirmo que sou a racional mais emocional e vice-versa, então, ficar sem lógica me quebra as pernas. Só que tudo o que eu mais queria era sair dali.

Esse caminho me persegue aonde quer que eu vá. Não tinha ideia da quantidade de correntes que você deixou em mim enquanto eu dormia. Pior ainda é pensar na possibilidade de tu ter deixado alguma chave na tua gaveta. Por que você quer me ver presa?

Enquanto você me solta aos poucos, eu não tenho tempo hábil para reaprender a voar. Cada penhasco que me chama, atiçando a minha vontade de me jogar. Só mais um passo. E descubro que meus tornozelos estão presos. Por que você quer me manter presa?

Tuas palavras contraditórias sempre reafirmaram a ideia de que existiam dois mundos. Eu, tu e o mundo e eu e tu contra o mundo. Entre quatro paredes cabe mais gente e no teu coração também. Tu me transparece asfixia e isso não me dá tesão. Eu sempre fui a tua presa.

Caçador, o teu silêncio não é segredo. É pesadelo e é desamor.

Tua armadilha foi ser tão amável e nunca amar.

Eu caí.

Quero levantar.

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1

11 abr

Eu já imaginava que não seria fácil. Mas nunca cogitei que fosse ser tão difícil.

Será que você percebe que nunca foi sobre eu e você?  Será que eu percebi que nunca foi eu e você? Sempre as outras e os outros.

Por mais que eu negue, ainda sou emocionalmente dependente e isso dói. Literalmente. Sinto pontadas no meu peito a cada vez que uma lembrança tua bate em mim.

E o resultado disso, é não conseguir terminar. Nem os textos, nem os sentimentos, nem o vínculo que ficou depois do fim.

Lembrete

30 mar

Eu lembrei de você ontem.

Na verdade, eu lembro de você todos os dias.

Porque esse é o nosso único vínculo desde que você se tornou uma lembrança.

Sereia

21 set

Não transborde amor se não sabes nadar. Não sou salva-vidas, sou sereia e quando tu tirar os pés da areia, eu vou te encantar.

A placa avisava que a maré estava imprópria e ainda assim você mergulhou. O preço da teimosia você não encontra na sua carteira. Que tolo! Achou que me mudaria. Logo eu, sereia.

O acidente já estava feito, não tínhamos muito o que fazer. Entre idas e vindas à superfície buscando um pouco de ar. Não adianta se debater, meu bem, ninguém conhece essas ondas como eu. O segredo de sobrevivência é entrar no ritmo, se as ondas estão calmas, te acalma e vai.

Se tiver a chance, pergunte a qualquer navegante, o que um bom marinheiro deve saber. Nós, eles dirão. Até porque se não fosse por nós, nenhum deles estariam onde estão. Enrola daqui, prende dali, puxa, puxa de novo para garantir. Com o tempo você percebe que prática é melhor do que força e então fica mais fácil entender sobre nós.

Mas agora que não tem como voltar sem ajuda à beira, mergulha em mim e prende a respiração até quase perder os sentidos. Não é por acaso que o fundo do mar é um mistério, aproveita porque se for pra ser. Sereia.

In’ continência

13 fev

O que eu não digo, meus olhos dizem e isso te incomoda porque você faltou nas aulas de interpretação. Não que eu queira, propositalmente, te incomodar, mas é que eu faltei nas aulas de relação.

Diariamente eu engolia diversas palavras, no café, no almoço, na janta e quando tu me chamava. Eu sempre soube que era exigir demais de ti que você me decodificasse pelas minhas ações. Quando eu te abraçava mais forte te pedindo pra ficar, quando minha respiração era pesada por não conseguir carregar a mistura de desejo e incerteza, quando eu balançava a cabeça para não entregar que eu passaria a noite inteira te olhando.

Mas eu só era mais uma que tinha o beijo com gosto de vinho barato. Mas eu só era teu escape, teu segredo, tuas angústias. Angústias essas que você não me contava, mas eu sabia que você não estava mais ali quando parava a mão na minha cintura e trazia meu rosto pro seu pescoço como quem quisesse se expressar sem que ninguém visse.

O telefone toca e é hora de ir embora. Até hoje não entendo como eu ficava com o teu cheiro e tu não ficava com o meu. Somos dois amantes que não se amam. Sou uma amante que tem medo de amar. Porque com a mesma facilidade que tu me chama, tu me deixa de chamar.

Talvez seja por isso que eu nunca digo o meu nome.

Nada que uma garrafa de Balkan não resolva. Você é só mais um dos meus homens e eu volto a marchar.

Perdido

3 fev

Não deu.

Como assim?

Ah, sabe, tipo, quando não rola? Quando não tem química? Quando não flui? Como é mesmo que eles dizem? Quando não bate, é isso? Foi mais ou menos isso, paciência.

A cerveja estava gelada, a tequila rasgou minha garganta, mas eu poderia beber mais duas garrafas de vinho e nada mudaria. A música era boa, sua jaqueta ficou bem em mim, mas eu dispensaria. “Uma puta”, você deve estar pensando e eu entendo perfeitamente o seu lado.

Madrugadas trocando mensagem e como assim eu não gosta nem um pouquinho de mim? Vagabunda.

Andamos de mãos dadas nos parques, conheceu a mãe e beija na porta da faculdade e ainda diz que não sente nada? Vadia.

Fica calmo, – por mais que eu ache essa frase apavorante e estressante – não era pra ser.

(Rascunho salvo há 9 meses. Interminável já que, de fato, nunca começamos).

Somos dois estranhos

4 nov

A gente sai toda semana, mas fica um no outro quando se despede.

Até se encontrar de novo.

Porque você não me perde nesse meio tempo, porque você não me pede. Não pede pra ficar, tampouco para ir embora. Estamos parados no meio do caminho, faz tanto tempo – ou parece fazer. Tudo o que você sabe sobre mim, é mentira. Eu menti para você, me desculpa. Ao mesmo tempo, você sabe coisas sobre mim que ninguém sabe.

– Tá apaixonada?

– To

– Putz….

– Não se preocupa, nada que um antialérgico não resolva.

Elas dizem que eu tenho medo de me entregar. Eu digo que sou um exército de uma mulher só e assim pretendo marchar pelo resto da minha vida. É claro que ‘vezinquando aparece uma missão ou outra, mas essa guerra é íntima demais para outra pessoa além de mim fazer parte.

Eu fecho os olhos quando você me abraça, troquei o sorriso de canto pela gargalhada. Não sei o que sinto. Talvez eu não sinta nada. Igual.

Diferente do que pretendíamos, eu queria vinho, você um copo d’água. Bem que falaram que se transformava água em vinho, você me faz ver tudo girar. Eu quero te decifrar e te devorar. Não tem 8 ou 80. Eu quero tudo o que você pode me dar.

Estamos devagar, quase parando. Eu falo que você não sabe nada sobre mim, mas eu também não sei nada sobre você. Somos dois estranhos acostumados como está.

Não sei se gosto de você.

Não sei se me acostumei com você.

Essa é a minha proeza, ter a dúvida como certeza.