Arquivo | agosto, 2010

Tempo

29 ago

Eu não paro de lembrar que eu tenho que esquecer, eu não deveria tentar, mas o que eu posso fazer? Quanto tempo o tempo tem que não temos tempo pra mais nada? Se o tempo não ajuda, se o tempo não nos fala. O que vamos fazer nesses últimos minutos, o que vamos dizer pouco mais do que sessenta segundos? Eu escolhi ficar calada.

Tudo é tão doce quanto lágrimas salgadas, que desenham minha face quando já não resta nada. É pouco drama, é muito drama, é ele quem me chama, quando nossa música começa a tocar. Eu não consigo mudar a estação do rádio se essa música não mudar também, me vem a mente que tudo isso é um disco arranhado e eu passarei a minha vida inteira a ouvir. As mesmas palavras, as mesmas canções. Eu quero tudo, eu quero nada. Vivem sem razão para a emoção.

Não me chame de futuro, ele nunca vai existir. Se você parar pra pensar o hoje é o amanhã de ontem, sendo assim, nunca vamos alcançar se a saída está ali, ela tem que estar aqui, se o dia seguinte é tarde demais é porque hoje eu descanso em paz. Facilmente eu tropeço nessas ruas mal asfaltadas, tenho  certeza que vou cair e não há quem possa me acudir, espera aí, não consigo olhar muito a frente, esse imenso clarão faz os meus olhos se fechar.

Chego a dar risadas quando me chama de egoísta porque falo só de mim. E cada vez que os ponteiros se cruzam fica mais óbvio que é sobre mim para ti, sobre ti para mim, sobre nós para ninguém. Procuro alguém que me chame de meu bem, que me iluda com as mais doces palavras que se possa proferir e que me iluda mais ainda dizendo que nunca vai me iludir. Eu te procuro mesmo que sem querer. Quantos quilômetros se fizeram entre nossos corpos? Perdão você está na minha frente.

Não vejo você, não vejo ninguém, não vejo nada.

Esse enredo não me agrada. Entretanto preciso chegar ao final do livro, só assim concretiza-se um fim. Mas não cabe só a mim, essas viagens sem sair do lugar, já nem sei aonde eu vou parar. Lá, acolá, aqui,ali. A primeira porta que se abrir sozinha. Porque eu joguei a chave fora no primeiro lixo que encontrei no caminho. Na verdade, nunca tirei a chave do seu bolso. Na verdade, o relógio me diz mais que você. Os ponteiros vão me trazer de volta ao início. Aquele lugar que você chamou de final.

Não quero mais que os pontos se transformem em vírgulas ou reticências, me conformo com uma única presença. A minha. É como uma linha. Enrosque em teu pescoço e sufoque-se ou nunca encontre o fim. Deixe que eu encontro sozinha.

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Não olhe para trás

22 ago

De tanto eu te falar, te ensuderci e agora da minha boca saem letras unificadas e sem som algum. Palavras, ditas para o nada. Palavras, lentamente vem e logo acaba. Nem por isso eu modifico, continuo cochichando, sussurrando, falando, gritado, algum dia vão me ouvir. É que teus ouvidos estão tão longe, faz sentido não me escutar.

Escrevi com teus lábios as mais belas poesias, mas já não tenho para quem recitar. Já faz tempo que não vejo uma Lua Cheia, nem ela está para me acompanhar. Era um domingo, era um parque. Hoje é domingo, hoje é um lugar abandonado. Nem mesmo flores de plásticos aguentaram ficar lá, o ar está mais cinza, o portão empoeirado, não tem mais segurança e muito menos crianças. Mas era um lugar tão bom. Mas era um lugar.. que não existe mais.

Confesse, é só isso que não existe mais? Dá a impressão que resiste e opta por viver num conflito de ora guerra outra paz. Se quer saber, eu deixo você escolher, isso só porque não sabe as próprias opções e mente com convicção, tentando me convencer que ainda não perdeu o controle. Só me resta rir. Só me resta partir. Não quero mais viver de retratos guardados na minha carteira, não quero mais lembrar os fatos sabendo que tenho que esquecê-los de qualquer maneira. Carrego na minha mochila a certeza de que tudo é incerto.

Só queria saber, por onde andam os teus olhos? Eu odeio o jeito que você me olha, eu odeio ainda mais saber que você não quer me olhar. Esses teus olhos tão falantes já não querem mais me contar..

Mas eu ainda quero ouvir

Você não vai me chamar

Ao mesmo que te ensurdeci, você conseguiu me cegar.

Porta 3

21 ago

Espere, por que levou a chave? É uma maneira de me incentivar a te esperar? Porque se for, isso só me faz delirar, são dias, são noites, fico sem ter no que pensar. E nisso vem a brisa ou o vento e me chama para dançar, são os movimentos lentos e suaves como a ponta de seus dedos, são os momentos e os baques que não se levam com o tempo.

Agora, existe um buraco em minha alma de onde se pode sugar o meu interior, leve contigo meus pensamentos, leve contigo o meu amor. Ô meu bem, eu sei que é mais fácil dizer que está tudo bem, ô minha vida, não se ouve mais o boa noite, nem bom dia. Sim, eu deveria me acostumar com a sua ausência, não vá acreditar em tudo em que te falam por aí, talvez você seja um daqueles que tem tendência em acreditar em mentiras, nunca conseguiram sobreviver sem confiança, é como um edifício sem base, você constrói e quando menos espera ele destrói.

Mas é claro que eu acreditei, você disse confie em mim. Mas é claro que eu me ceguei, estou num túnel sem fim. Só você consegue sair. Entretanto, não me incomodo de ficar aqui, a chuva não me alcança, eu posso ser criança, eu não preciso me esconder. Você vai me achar, mesmo que sem querer. Este lugar, é o meu paraíso particular, cercada de papéis e fotos e na vitrola eu deixo o vinil a tocar. É claro que eu decorei esse refrão, é claro que essa melodia ainda me empolga, é claro que não tem mais luz.

São os passos marcados no seus braços, você não demonstra o cansaço porque não quer a minha ajuda. Logo não posso fazer nada, estamos distantes como Sol e Lua, mas você lembra que a mesma luz solar que ofusca, cede o lugar para menores estrelas e para  Lua? Não deixe teu brilho te dominar, você é tão maior que isso, o teu maior engano foi deixar o sucesso te fracassar.

Ainda tenho o gosto na minha língua. De um café quente e amargo. Ou aquilo que chamam de passado. Para mim, é tudo a mesma coisa, isso já passou de um mero recado.

Alguém vai te encontrar e te dizer que eu mandei um singelo: Oi.

Quatro para as quatro

15 ago

Escuta aqui, a culpa não pode ser só minha, como apenas um de dois se desequilibra da mesma linha? Não era tudo simetria, não era perfeição? Me explica como eu pude cair sem ser perceptível para sua visão? Honestamente, acabo te tornando desonesto, mentiu para mim ao dizer que estaria sempre me guiando e que caminharíamos sempre para o mesmo sentido e direção.

Até eu te encontrar dá tempo de decorar, frases, letras e canções, que te façam parar e pensar, alguma vez na vida você teria que tentar. Eu sei, é bem mais fácil sair correndo, só que a energia não é eterna e quando o cansaço te domar, não pode nem ao menos dominar. Para no caminho, mas não está acostumado, minha sombra passa reto, está sentindo o que eu senti enquanto fiquei do seu lado. Sente que tudo é nada, a insuficiência reina e nessa monarquia o poder nunca esteve em nossos comandos.

Não teve o último pedido, não teve o último beijo, não teve o último adeus, quem me garante que é o último sofrimento sobre ti? Que Inferno, qual é a graça de ir e vir? A infantilidade de não se decidir, se é lá ou aqui. Se tornou difícil de respirar, me despertou a raiva, a ironia e me tirou o ar, já ouviu falar em prosseguir? Creio que não, procura portas e janelas, porém nunca soube realmente como sair. Se for pra ser assim, que não seja, devido à experiências já supomos as consequências e não há nada que me faça arriscar. É como piscar os olhos e te ver evaporar. É como dormir contigo, e comigo acordar. É como escrever cartas e não ter como te mandar. Não me diga para aonde foi, tampouco vou esperar.

Não leve a mal, mas deixe comigo o ponto final. A coragem que te falta, reflete em mim para fazer o tal e que coincidência, são os pontos que envolvem uma cicatriz.

A razão que eu encontrei para viver, me matou.

Sem querer

14 ago

Mesmo que sem querer invado seu caminho e te faço tropeçar sob meus olhos, te levantaria quantas vezes fosse preciso, minha mão se acostumou com a tua. Lembro-me bem dos nossos dedos estrelaçados, tiravamos fotos com nossos olhos, afinal, basta  a memória se escrevemos uma história. Hoje me arrependo de não ter uma máquina fotográfica, nem que fosse para rasgar as velhas fotos. E esconder as cópias.

Vem, enquanto o tempo demora e o mundo não se controla, quando não se sabe para onde seguir. Talvez, o que a gente implora, bata a nossa porta, não foi você quem me pediu pra ser feliz? Quero um sorriso no teu rosto e empestear  a minha sala com o teu perfume e que assim ele perdure tão quanto o silêncio se eternizou. Deixa eu falar o que eu não te disse quando minha voz só soube falhar, eu posso voar, era só questão de me libertar. Seja aqui ou em outro lugar, pode procurar, minha sombra não vai me ocultar, me procure sem precisar me achar. Só basta olhar para onde o vento vai me levar.

Fale logo sim ou não, é impossível prosseguir carregando o ‘talvez, quem sabe’, está tão óbvio que é a nossa realidade, optar por incertezas, mas tem uma carta em cima da mesa, dizendo te encontro por aí. Sem remetente ou destinatário, aí já não é tão fácil, logo agora que eu me decidi. O papel já não está mais em branco, consumi-o com minhas palavras cuspidas que me faziam tossir, estava entalado dentro de mim, as canções sem melodia, as noites sem um novo dia, um Sol numa tarde fria.

E te ligam sem falar nada do outro lado da linha, nem me lembro mais como é o seu alô. Teu telefone toca, não sou eu, tua campainha também, continua não sendo eu, tua caixa de e-mails lota, e está longe de ser eu. Devemos sair, devemos ficar? Preciso saber se é o mesmo o nosso lugar.

Mesmo que sem querer te encontro em precipícios, queria saber se quer pular ou se busca ar. Mas deixa estar..

Vazio Composto

9 ago

Até então, achava que tinha em minhas mãos tudo aquilo que conquistei. Mas não te vejo mais e já nem sei aonde você está, é tão longe assim daqui que não dá para me escutar? Ou tampa os ouvidos por não saber negar que tem saudades? Verdade, é muito mais do que uma crise de indentidade. Quem sabe por onde anda a simetria das nossas metades?

E se agora eu não grito mais teu nome é porque não quero que pareça que eu vou correr, se perco o foco ou nã0 acompanho a velocidade, todos sabem que eu vou cair. Me desacostumei a levantar sem ajuda, por tanto tempo estou a ponto de buscar novas ruas, já não encontro outra ideia, o que me atrapalha é essa fúria. Mistura de abstinência e ira, como isso se explica? Se querer fosse poder, eu voaria com você, me esconderia nas nuvens, te encontraria no céu, talvez exista a tal da estrela guia e nosso caminhos vão se reencontrar. Eu sei que quero, eu sei que espero, eu sei que rezo sem você ouvir.

O novo velho, ganha nota zero, provavelmente, eu vou repetir. Não é você, sou eu, eu uso tua frase antes que tu possas dizer. Deixa pra lá, deixa de lado, ora ou outra sempre vivemos do passado e não saímos do lugar, ainda que sem querer, eu perco meu compasso, cabe a mim questionar se ainda se lembra de mim ou se foi verdade quando disse fim. Em cima da minha mesa o livro permanece aberto, resta uma página em branco, assumo que falta um pouco de encanto.

Espalho vestígios em todos os cantos e pedras em todo lugar, quero mesmo é que tropece, mas eu não deixo você cair.

Ligação Desligada

8 ago

E: Quem fala?

V: Como assim? Não reconhece minha voz? -riu

E: Desculpe, só reconheço pelo número, o seu aparece como ID oculta.

V: Queria saber como está o seu Domingo…

E: Leia lá no meu twitter – ironia

V: Não, não tem como te ouvir.

E: -silêncio-

V: Assim, continuo sem te ouvir. Larga disso, eu sinto sua falta.

E: Eu fiz de tudo para resultar em nada. Ainda reclama por eu ficar calada, sempre quis falar, você nunca me ouviu, continuo falando, mas desta vez não é para ti. Deixa minha voz, deixe minhas notas, agudas e gritantes, me explique a graça de deixar tudo tão sufocante. Saia do meu caminho em busca de ar, ao que você parou eu quis continuar e

V: Ei, vai ser diferente, eu prometo.

E: Tenho que ser indiferente, pretendo. Continua fumando?

V: Preciso ter algo em minhas mãos – fazia graça

E: É.. me ter não era o sufiente, pfff.

V: Troco um maço por um abraço.

E: Te dou três maços por cinco passos.

V: Para trás ou para frente?

E: Tenho que desligar.

V: Me responde.

E: Já me deixou sem resposta por tantas vezes.

Mas e agora que estou cega, você quer que eu tente enxergar. Esqueça, nunca vai mudar.