Arquivo | outubro, 2010

Radiorrelógio

25 out

Eu não sei mais que música ouvir, se qualquer trecho ou melodia já não me faz sorrir, quem sabe eu perdi o meu sorriso tentando encontrar o seu, quem sabe eu estou entre o Inferno e o Paraíso, sem saber quem perdeu. Quem vai perder de novo? Sem nunca ter ganhado nada.

Então, eu desligo o rádio e ouço a solidão. Então, porque escolher viver em vão? Entre tropeços e avenidas eu estou debaixo da arma, completamente desarmada, confesso, um tanto mal amada, conversando com a cadeira vazia do bar.  Eu tenho uma casa, mas quero o meu lar. Lembro que falei pra não lembrar, pela primeira vez, você não quis contrariar e prosseguiu sem olhar pra trás, tornou ‘passado’ o meu sobrenome do meio, aquele que antes era ‘paz’. Não mais.

Se quer saber, eu já não sei de mais nada. E se ainda tem a chave da minha casa, jogue-a na calçada, quero que essa porta sirva de fachada. Preciso parecer forte o suficiente para caminhar, seguir em frente, sem essas curvas que mudam meu caminho, invadem o destino e depois me deixam louca. Insanidade, a tatuagem de verdade, o que meus olhos tentam dizer, é que eu sou louca, tão louca, inteiramente louca. Por você.

Não existe remédio, não existe cura. E mais loucura, e mais loucura. Na beira do precípio, onde todos jogam o juízo, agora é a hora em que me decido, se desabo ou volto ao início e te digo não.  Mas, se começasse com um não, não poderia começar.

Eu procurava uma frase de efeito, onde eu pudesse cuspir minha raiva, assim, virei e disse ‘sinto sua falta’.

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December again

16 out

Você se diz confuso. Eu reclamo de cansaço. Devo estar cansada das suas confusões. Alguma vezes eu juro que tento acreditar, mas não há nada que me prove o contrário, de que se sente muito mais confortável, quando tem muito mais do que eu ao seu lado. E eu digo literalmente, porque no sentindo figurado, você está tão isolado que nem sabe sua própria identidade, e de verdade, eu te ajudaria a descobrir o seu nome, se me ajudasse a resolver esse quebra-cabeça que ganhei no Natal passado.

Era Natal, e de presente eu só queria sua presença. Me contentei com um ano novo banhado de champagne substituindo sua eterna ausência. Mas você estava lá. E ainda está aqui. Você está em todo lugar, só basta eu imaginar.. porque tudo o que eu temos é o que eu guardei numa caixinha que escondo debaixo da cama, eu durmo com súplicas misturadas com decepções, pela falta de percepção. Eu planto falsas árvores só para ocupar o meu tempo, e olha que irônico, eu ando tão sem tempo.. eu ando tão sem nada.. penso em parar de andar, exatamente, ficar parada. Esperando o próximo avião estourar as nuvens, migrando almas, migrando vidas. Rezava por uma ida sem vinda. Esqueci de falar ”amém”.

Está faltando uma peça e eu não acho-a de jeito nenhum, mas isso é impossível, esse quebra-cabeças deve estar mentindo, essa figura vai ficar com um eterno vazio. É uma pena. É o que eu tenho a dizer, é uma pena. Uma imagem tão sintonizada e harmônica, com um buraco no meio. Que sensação estranha, me remete à um déjà vu, antes de exalar o último suspiro, deveria ter o direito de viajar por minhas vidas em uma só.  Que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço aqui, queria tanto ter o poder da situação, porém isso é tão imaginário, olhe só em minha volta, a ganância fuzilada no olhar. Então eu vou correr por aí, correr, correr e correr.. quero tanto meu lugar.

Eu não deveria ter me envolvido.

Eu não deveria ter me escondido.

Eu não deveria ter te ouvido.

Avenida viva, viva avenida

9 out

É mais que isso, mas não é quase nada. É tudo aquilo, é uma facada. Cortante, estratégica, bem afiada. Adentrou minha alama, sugando meus medos, minhas vitórias, minhas derrotas, levou meu eu, levou você. Tudo o que temos é nada. O suficiente para guerrear, só queremos fazer novas armas, o suficiente para atormentar, só queremos interpretar outras palavras.

Não se assuste se encontrar-se na próxima avenida, porque eu não me lembro mais, eu só sei o meu nome ou talvez só saiba a identidade que eu criei para mim, era tudo uma personagem, numa peça mal vendida, esse é o motivo das cadeiras vazias. O silêncio me consome, perdurando no tempo perdido que eu custo a encontrar. Você tem visitado seu próprio túmulo? Faz tempo que não trocam as flores. Já era de se esperar, que a velha chama do início ia se apagar, é por isso que eu sinto a fumaça exalada nos ares, chegamos quase lá, no meu mapa não continha esse abismo no meio do caminho. Olha só, não há mais nada para olhar, tá tudo brando, tá tudo preto, tá tudo girando, eu estou delirando, eu não estou aguentando, eu quero sair, eu quero ficar, é que se eu partir esqueço o caminho para voltar.

Longe, tão longe. Não existe mais nada do que cinzas, cinzas de cigarro, cinzas de poluentes, cinzas de um corpo, como eu não percebi que estava tudo morto? Ainda assim eu insisti. Noite fria, dia quente, não é a minha imagem que tatua-se na tua mente. Quero saber o porquê de me assistir de olhos fechados. Desde então, mudo de calçada sempre que te encontro mas isso não quer dizer que eu não queria, por acaso, me esbarrar em ti. É que em todos esses desencontros eu pensei que não tinha mais nada para pensar, enfim. Bem que eu podia desaparecer, para não mais paracer perto, tão perto.

Mais uma chamada perdida para a minha lista, mais uma cena cegante para minha vista. E eu jurando que ia ser uma noite tão normal, regada à beijos, flores e amores, porém não foi nada igual… Quem sabe eu te vejo por aí, prometo mentir que quero saber como está tua família, ao menos minta para mim que sente minha falta 1/3 do dia.

Pra quê procurar o remédio que faça o amor sumir se é tão difícil de encontrá-lo?

Deixo tudo na TV

2 out

Sabe quando eu aviso que estou indo embora? É nesse exato momento que eu espero que tu digas ‘por favor, não agora’. Mas você se cala, nunca fala nada, como eu vou saber se te incomoda? A tua mente está tão trancada quanto minha porta.

O relógio chora, avisando que os ponteiros cumprem o seu diário circuito e não demora para que estampem a revista com a mais novo suicídio. Sem motivo. Pelo menos aos olhos dos espectadores. Porque julgar é tão fácil, é até legal apontar a sentença final, sentir o poder em suas mãos, afinal, você pode e se não pode ainda assim acha que pode. E por que se incomoda quando te julgam? Uma hora o poder conheceria minhas mãos. Vou porque é preciso, volto por querer saber se ainda está no mesmo lugar. Só que essa estrada já está ficando muito íntima dos meus pés e se eu buscar outro caminho é capaz de eu me perder, você tentaria me achar? Ou esperaria escurecer?

Não é um aviso, tampouco uma ameaça, é só o registro de quão rápido tudo passa. E vai voar, voar, voar, bagunçar os meus cabelos. E vai esperar, esperar, esperar, só pra ver quem chegou primeiro.Ontem você dormiu se sentindo realizado, hoje você vai dormir consumido pelo cansaço, amanhã você dormirá sem ter ideia dos teus passos e de quanto teus laços me afetam. Você dorme sem saber se vai acordar. E eu imploro em teus sonhos o meu velho lugar. Então cante comigo, de que vale as notas sem a melodia? Então cante comigo, se não for a nossa canção, escolha a melhor do dia. As nuvens escurecem como se me falassem que eu deveria ter levado a sério a previsão do tempo, minha bolsa está sem o guarda-chuva. Eu te encaro como se te falasse que deveria ter levado a sério sobre minha saída, sua vida está sem a minha.

Por que esperar se você pode buscar?