Arquivo | novembro, 2010

O conto do precipício

21 nov

Eram cinco amigas. Típico de filme americano, as cinco melhores amigas, as cinco irmãs de alma. Óbvio que como qualquer amizade intensa, tinham algumas desavenças, se bem, que nesses novos tempos, a intensidade não virou nada mais que um acessório. Que seja, o fato não era esse, os nomes também não importam. A qualidade de uma, apaga o defeito da outra. Era a simetria que elas buscavam. Todo domingo ensolorado, passavam a manhã na beira de um precipício.

Se acalmem, essa não é uma história em que mato todo mundo por excesso de personagens. Foi um domingo bem diferente, resolveram desabafar tudo o que estava entalado, só que não olhando para os olhos das outras, mas para o nada, para o eco, para o precipício. Seria possível alguma delas perder o juízo?

A primeira levantou e sem alterar o tom da voz, reclamava da falta de tempo e ao mesmo tempo da falta do que fazer. Parecia irônico, porém, seria em vão explicar. Ela era uma garota dedicada e ao mesmo tempo tão desatenta, enquanto as palavras a prendiam, os atos a cegavam. Provavelmente, aquele domingo mudou  a vida dela. A respiração voltou a ser sincronizada e calma, as gaivotas levaram toda a sua angústia.

Segunda guria, achava tudo isso uma perda de tempo. Queria mesmo é que chegasse a noite, teria como sua companhia sal, limão e umas boas doses de tequila. Adivinha o que ela desabafou? ”Eu quero a porra do meu isqueiro”. Se bem, que mal sabia tragar um cigarro.. legal mesmo era ver sua mãe enlouquecendo pelo cheiro que impregnava a sala de estar. Só assim tinha sua devida atenção.

Terceira, a tachada de sem-graça. Não ouvia as bandas da moda, não vestia a melhor grife, não bebia, não se drogava,não tinha 24 amores numa noite e mesmo assim era essencial para esse grupo. Antes de se levantar, olhou bem nos olhos de cada uma e apenas sorriu. Sussurrou algumas palavras que mais pareciam uma prece e em seguida se jogou. Seu corpo voava enquanto a quarta se levantou como se a maior vontade do mundo fosse possuir braços elásticos para que salvasse a insana amiga.

Em vão foi a quarta, decepcionada, por um instante esqueceu todo o texto que tinha ensaiado para desabafar e apenas conseguiu dizer: descanse em paz. O que era Sol virou nuvens. Nuvens escuras, mas sem o cheiro da chuva.

Só faltava uma, o clima estava tenso. Na mesma hora a segunda guria pegou o carro e saiu numa absurda velocidade, enquanto a primeira chorava feito uma criança. Naquele momento foi tatuado um trauma. A última garota encheu o pulmão e sussurrou: ”Apenas você entendeu o espírito desse encontro. Desabafar vai além de palavras e problemas, desabafar é jogar pela janela o que se tornou inútil e eu tenho certeza que se você optou por se jogar, não foi por drama, foi a tua escolha..” E sem terminar de falar, voltou para as duas garotas restantes e cada uma seguiu para sua casa.

A noite chegou. A primeira passou aos prantos. A segunda, embriagada na escada. A terceira, escolheu o seu novo lugar. A quarta, dormiu entre os seus diversos ‘mas, por quê?’. A quinta, percebendo o céu estrelado, disse: começou sendo minha amiga, virou minha irmã e agora é meu pequeno anjo.

Pobre Poeta

12 nov

Vai e volta. Nem sequer fecha a porta e eu, tão tola, zapeando os canais. Não demora e eu caio no sono, perdi o sinal da minha TV. E o que eu vou fazer? As reprises não estimulam meus olhos a ficarem abertos.  Mas, se eu fechar os olhos não verei você adentrar mais uma vez.

Nunca tocou a campainha, já se sentia de casa, se bem que eu também nunca reclamei. Enquanto você percorria o mundo, colhendo outras flores, chamando outros amores, caminhando por diversos corredores, eu só tinha uma rosa um tanto quando decomposta, dentro de um livro, que eu nunca havia lido.. Estou farta de finais feliz. Porque escrevem tanto drama, tanta sofridão, partidas, lágrimas, feridas, laços cortados ou laços tão atados a ponto de enforcar, para mais tarde descreverem a perfeição, sem me avisarem que é pura ficção. O poeta se matou. Já que ninguém quis saber de suas angústias que terminavam sem sorrisos. Hoje eu sinto falta dele. O poeta me contava as histórias e de tão fascinada eu achava que eram minhas histórias, mas a verdade é que eu nunca vivi nada. Cheguei no abismo da ficção.

Como assim? Eu, mutilando, esmagando, cuspindo na ficção pra saber que sou parte dela. Deve ser por isso que dói tanto.  É como um avião em pane, com seus passageiros em pânico e eu apenas esperando minha máscara de oxigênio. Não aguentei e fechei os olhos, depois disso, não lembro de muitos detalhes. Pobre poeta, se ele estivesse comigo, tenho certeza que saberia descrever cada aroma do ar. Contudo, eu não sei, não sei. Me desculpe, essa turbulência toda acabou me acordando e meu corpo 83% inconsciente me carregou até a porta.

Estava tão desacostumada que eu franzia minha testa para tentar enxergar. Pela primeira vez em muito tempo o Sol invadia além das frestas das janelas. Mais um passo e poderia eu percorrer o mundo, colhendo flores, chamando outros amores, caminhando por diversos corredores. Quem sabe até esbarrar em ti.

E foi assim que eu virei as costas e tranquei a porta. Finalmente comecei a ler o livro.