Arquivo | dezembro, 2010

Restrospecto perpétuo

30 dez

É, está acabando. Mais um ano, mais enganos. Eu que fiquei o tempo todo ‘me falta amor, me falta amor’ pra entender que foi o que mais me sobrou.  Amor pelos meus amigos, que foram meus pais e também meus filhos. Amor pela vida, que cicatriza todas as feridas. Amor pelos meus erros, por estapear minha cara e mostrar que sou humana. Amor pelo amor, que se banalizou nas rimas com dor.

Os fogos já explodem dentro de mim, com lembranças, tanto as boas como as ruins. E eu já não me importo. Está acabando. Quero mais, muito mais, até dizer chegar. Preciso de insanidades, dançar mais vezes em cima da mesa. Não falo mais, agora só grito, coube o destino errado sobre meus sussurros, então que saiba o mundo, o nada sobre tudo. Eu nunca parei pra fazer uma retrospectiva e quer saber, nunca vou parar, quero mais é continuar. Correr, correr, correr, até cansar.

Mas nunca me desligar.

Também não posso me esquecer: Não lerei mais livros dos outros, só assim escreverei o meu. Chorar mais, rir mais, fazer mais. Com o pouco que deixei pra trás. Ainda não conheço essa estrada. Se você pudesse, ao menos,  me ver agora, falaria que eu mudei, eu riria da tua cara, foi exatamente do jeito que eu planejei. A não ser que apareça o caminhão de mudanças, meu endereço permanece o mesmo, estou apenas viajando por outros mundos. Não sou adepta do tudo novo, de novo. Só quero manter o que me fez crescer, até que eu possa chegar aonde eu nunca cheguei. O céu não é o limite.

Logo eu acordo com algo me dizendo: É, está começando.

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Vem

20 dez

Vem, vamos reclamar

Dos fatos, das fotos, do ar

Da música que parou

Ou que nunca soube começar

Vem, vamos tentar

Escrever nossas causas, sem depois apagar

Descrever nossas casas, onde queríamos morar

Já não temos nosso lar

Vem, vamos sentir

Até que não paremos de cair

Cambalear entre os tropeços, antes de partir

Afinal, eu só sei sorrir

Mesmo que seja pra me despedir

Vem, vamos mentir

Precisamos tanto sair daqui

Só não queira me fazer rir

Logo, não estaremos mais aqui

Vem, vamos fazer

Amar

Sofrer

Cantar

Sofrer

Escrever

Sofrer

Vem, vamos voltar

Enquanto o caminho eu saiba decorar

Enquanto as palavras não se intimidam a dançar

Enquanto houver alguém

Que possa me escutar

Ah, antes que me pergunte, estou bem, obrigada

Ah, antes que você responda, eu também não sei nada

Vem, vamos embora

Antes que eu te tranque lá fora

Enterrado entre minhas memórias

Fora do gancho

18 dez

– Oi, meu amor.

– Olá.

– Você está frio.

– É que eu preciso de você.

– Você precisa de um casaco.

– Agora você é quem está fria.

– É que precisamos um do outro.

Eu tinha certeza de que você ia sorrir. E que eu sempre sorrio com teu sorriso. Nunca foi segredo, sempre tive meus mistérios, meus medos. Só nunca disse quais. Por tanto eu deixei o telefone fora do gancho, eu quis tanto me mascarar de estou-bem-melhor-do-que-antes-quero-que-você-se-dane. Mas eu esqueci de desligar o rádio e quando eu menos esperava, começava aquela música, o refrão que invadia meu subconsciente, me angustiava, era comigo que eu dançava. Me leve pra fora, esta noite, onde pessoas, animais, objetos não vão me encontrar. Espero que a luz esteja lá. Porque eu preciso de algo que não se apague tão facilmente, mas por favor, não me drogue na minha própria casa.

– Então, que fazes da vida, guria?

– Nem eu sei, acho que a mesma coisa.

– Sempre a mesma coisa.

– É, tudo sempre igual.

– O quê? Não entendi, pode repetir?

– Repetir? Pois sim, eu faria tudo de novo.

– Ahn? Acho que me perdi.

– Deve ser por isso que eu nunca mais te encontrei.

Eu pecava me entregando nas palavras, mas disfarçava mesmo assim. E também. qual é a grande importância? Nem eu sei de mim. Só que minhas malas estão prontas. É, minhas malas estão prontas.

– Tá aí?

– Uhum, por acaso eu disse tchau?

– Não, ué.

– Viu? Então ainda estou aqui.

Eu minto dizendo que sei tudo o que preciso, nunca tive tudo, como vou adivinhar que cheguei ao suficiente? É por essas e outras que prossigo, sem nem saber o caminho. Ah, eu precisava urgentemente conversar comigo! Ainda tenho tanto a falar. Embora eu não tenha ideia de se um dia eu vou conseguir dizer tudo. Sem poder fazer absolutamente nada.

– Foi bom falar contigo, preciso desligar.

– Precisa ou quer?

– Estão me chamando na outra linha.

– Ainda não me respondeu.

– Se cuida.

Me prove que está tudo errado. Enquanto eu não decido se te deixo de lado.

Montanha-russa quebrada

14 dez

Ela diz que tem medo só pra ouvir que ele a protegeria. E quem te salva do medo de ter medo? Eu sei, eu sei, eu sei, gosto de fazer perguntas complicadas. Mas, me desculpe, se eu apenas quero me sentir melhor. Desta vez eu estarei escutando, todas as respostas tão bem decoradas, só que sem ficar surpresa. Eu posso procurar meu caminho mesmo com tantas dúvidas.

Me fale o que tenho que fazer para não ser como você. É um fato, não um sonho. Eu só queria fugir sem parecer covarde. Na verdade, ninguém nunca quis me tirar daqui porque eu só soube sorrir. O que nunca concluíram é que este falso sorriso que estampa o meu rosto é o veneno que escorre do desgosto. Preciso me desprender, sem deixar parte de mim. Preciso esquecer, sem que doa como qualquer fim. Sim, eu concordo que minha cota de drama vai além do normal. Lembrando que em nenhum momento eu disse que seria igual.

Ainda tenho tanto pra contar, senta aí, comece a me escutar. Quer água? Quer café? Quer uma nova mulher? Não me diga que não. Eu também quero tantas coisas novas, não se sinta culpado. Até porque, eu continuo sorrindo. Eu só queria que isso fosse um pouco mais engraçado, porque eu não me acostumo ao tédio, eu só queria que isso.. com um pouco menos de juízo. Que pena, se já estou louca, não posso enlouquecer.

Esta é minha casa, mas não é o meu lar. Andando por estranhas calçadas até me encontrar. Esta é minha cidade, a qual eu nunca conheci. Não foi este mapa que começou a me seguir. Se eu fosse você, não acordaria agora, deixei o meu perfume no seu travesseiro cubrindo a ilusão de que estou indo embora. Estou tão aqui quanto você. Por isso não chegamos a lugar algum.

Éramos dois. Continuaremos sendo dois.  Dois estranhos em lugares em comum.

Awake

4 dez

Desculpa, por não ter mais desculpas, por trancar a porta. E você queria entrar,justo agora. Estou trancada, por dentro, por fora. Pela nossa história.

Mas se quer saber, leve essa história contigo, eu não quero reler, eu não quero saber, o que eu fui pra você, o que eu deixei de ser. Mas se quer saber, eu também sei jogar, já conheço essas peças, reconheço essas regras, mas no final, joguei tudo pro ar. Senti o aroma da desistência. Estávamos exalando o fracasso. Nem mais um passo, por tanto tempo ficou parado. Agora eu conheço outras formas de fugir, sem deixar rastros. Me perco no escuro enquanto o escuro se perde em mim.

Quanto drama, quanto drama, quanto drama. Quem me chama?

Ninguém.

Não se incomode, eu já estava de saída. Não se recorde, essa é só mais uma armadilha. Eu queria mais e mais. Do que eu era capaz. Como eu desejo, um último beijo. Às vezes é difícil diferenciar tchau de adeus. Espera, tem um bilhete na geladeira dizendo ”não sou mais seu”. Quase pergunto ao freezer e quando ele foi? Insanidade da minha parte, tolices que se repartem. Yakutsk me aqueceu mais que teus braços. Pois pegue as caixas e desfaça os laços.

Apaguem as velas, apaguem as velas, apaguem as velas. O que tem dentro dela?

Nada.

Eu saio pela janela, onde a luz ainda pode entrar. Não era um conto digno de Cinderela. Foi muito mais do que um sapato o que se perdeu.  Tampouco podia ser Julieta ou Romeu. De veneno já basta eu. O meu novo endereço não consta em mapa algum, já se foram tantas vírgulas, não há mal algum. Não peça para que desinventem o tal do amor, aceitei que para entendê-lo é preciso dormir ao lado da dor, não digo isso por saber o que ele é,tampouco o que ele quer. Mas eu o quero tanto. Bem que poderia ser mais um dos meus tantos enganos.

Ela não se cala, ela não se cala, ela não se cala. Quando é que acaba?

Nunca.

Ando tendo sonhos atormentados e descubro que nós dois estamos acordados. Ando por aí, desobedecendo todos os semáforos, vai que numa dessas, eu te encontro ao meu lado.