Arquivo | fevereiro, 2011

Eu que não amo você – Já diria Humberto Gessinger

26 fev

Sim, eu tinha muito a falar, mas isso não significava nada, muito menos que eu ia falar alguma coisa. Cheguei aonde eu queria com a mala estufada de palavras, mas como usá-las em um meio termo? Não queria ser doce, tampouco amarga. Eu só queria ser eu. Eu só queria ser eu, com você.

De fato, eu era tão eu contigo,  eu falei coisas que nunca tinha dito pra alguém, eu confessei o que não deveria confessar, eu me entreguei como não deveria me entregar. E quando eu me joguei, seus braços não me seguraram. Chega a soar irônico escrever sobre um passado tão presente. Chega a soar irônico o meu sorriso quando me perguntam ‘afinal, o que você sente?’. Eu sinto muito. Em todos os sentidos.

Sinto muito pela incapacidade. A minha de conseguir. A tua de amar. A minha de fingir. A tua de falar. Um brinde à incapacidade, capaz que ninguém assuma que é incapaz. Não é novidade se alguém me contar que está rindo de mim, chorar comigo, ninguém chora. E dói saber que me completei com um vazio, eu me enchi daquilo que nunca existiu. Mas tudo bem, vai passar, sempre passa, não é isso que me mata, não é esse o veneno, isso nunca foi segredo, isso nunca foi nada. Quando o teu tudo se transforma em nada. Mudei minha biografia para ‘estou sempre enganada’.

Do que adianta eu falar ‘fale tudo o que tenha pra falar’, se tu não vai falar nada? Do que adianta eu me convencer que eu tenho algo a fazer, se eu vou continuar parada? Basta! Alguém precisa dar um basta. Ao menos um de nós precisa se salvar. Quanto a nossa história, eu que faço questão de contar. Agora as fotos me lembram o que quero esquecer. Clichê? E que nunca se apoiou no clichê quando não se via mais saída? Ora, por favor, tu não sabe nem um décimo da minha vida.

Oh, meu bem, não se sinta. Eu amei o personagem que fiz sobre você (quanto mais te conheço, menos te reconheço).

Chamada não chamada

16 fev

Eu estava com o telefone na minha mão e já tremia no fato de pensar em discar seu número, mas eu precisava ouvir tanto a sua voz. Provavelmente eu te acordaria e nada diria. Eu queria ouvir tua voz, precisava dela, faz tempo que o timbre da sua voz não adentra minha mente e me faz pirar. Desde o momento em que eu peguei o telefone eu já sabia que não ia te ligar, mas mesmo assim sentia medo. Era um medo até que gostoso. Me sentia uma louca adolescente ou uma adolescente louca. Somos jovens, tão jovens. E aqui dentro está tudo tão velho. É a mesma coisa que me deixa sem dormir. E me deixa sem sorrir. E me dá vontade de partir. Mas eu tenho tanto receio de ir sem avisar, algo me diz que devo ficar. Eu espero mesmo sem esperar. E você não tem ideia de como é isso, porque você se desliga das coisas tão facilmente, parece que não sente ou se sente, não demonstra. Assim eu suponho que você mente e as suas mentiras me agradam. Estava afogada em minhas próprias palavras e só eu podia me salvar. Estava no meio de um oceano e só via água, água, água. Quantos dias se passaram? Me perco sem calendário e com um relógio parado. E eu ainda quero ouvir tua voz. Não ouvir a ti, nem a mim. Ouvir nós.

Que inferno, sou tão tua.

Um fim ao fim

6 fev

Eu escrevi as mais lindas cartas e nunca entreguei. Eu imaginei as mais lindas cenas e nunca as fiz. Eu ensaiei os mais sinceros diálogos e fiquei calada. Eu amei tanto e mais uma vez eu me calei. Era metade te querendo e a outra metade te querendo ainda mais. Eu só te tive de longe e de longe não podíamos nem conversar.

Mesmo assim eu pirava com sua voz, reconhecia seu timbre de longe. E tu estava  bem do meu lado, fortemente abraçados, você se lembra? Em alguma vez você teve vontade de repetir aquela cena? Dizendo tudo sem falar nada. É cansativo procurar um lugar pra guardar o amor que nunca usei. Aonde fica o prazo de validade? Porque eu odeio ser pega de surpresa, dormir e acordar com um bilhete na geladeira. Ele dizia  ‘volto logo’ e foi assim que nunca voltou.

Poderia eu me dar ao luxo de morrer de amor? Mesmo que seja impossível morrer assim. Tudo bem, já inventamos tanto entre um capítulo e outro, que diferença faria, então? Pois que assim seja, no meu atestado de óbito quero a causa da minha morte em letras maiúsculas.  AMOR. Invente que ele me atropelou, ou que me sufocou, ou que me esquartejou. Eu só quero morrer de amor…

Sim, isso tudo dói. Mas doer é a prova de que eu ainda estou viva. Ainda posso sentir. O som do piano não me agrada mais, só que quero continuar ouvindo, já que tu não falas mais. Como você se relembra de mim? Escrevendo? Cantando? Sonhando? Ou invado teus pensamentos quando tu não queria mais pensar em nada? Exatamente como você faz comigo? É, eu sei o quanto é difícil. Se bem que o fácil nunca me atraiu, sempre gostei de buscar os melhores desafios.

Eu deixo você ir. Você iria mesmo se eu não deixasse.