Arquivo | março, 2011

Até quando, até mais

27 mar

Sem perguntas. Era essa a condição, e de fato não importa o teu nome ou tua porta ou quem tu já prendeu nessa prisão. E o que estou fazendo agora é jogar memórias fora, esvaziar, ultrapassar esse vão. Mas antes de tudo, vamos relembrar o antes, parar por alguns instantes, perceba como hoje estou falante e ao mesmo tempo hesitante. Abrir a boca pra falar e deixar sair apenas o ar, a mistura dos nossos hálitos, era teu cheiro, era teus passos, era eu me jogando nos teus braços. Foi só hoje, ou ontem, ou nunca. É, o dia vem e nós precisamos acordar.

Nisso eu apresso o passo, continuo em círculos, dobrando a mesma esquina pela terceira vez e tu continua na calçada, encostado no muro, eu olho em teus olhos tentando descobrir aonde fica o teu mundo. Desacelero e meu coração me contraria pulsando três vezes mais rápido, quase que me escapa pela boca, agradeço as buzinas que tiraram a minha atenção. Voltei a andar. Porém era preciso correr, até não aguentar, até nunca mais te ver. Evitei tanto um “até mais” que agora não tem mais “mais”, foi por isso que sobrou.  

E se for bater na minha porta que seja pra me abraçar e não me largar, viver um sonho lindo e esquecer de acordar. Vontade de ficar na ponta dos pés pra poder te alcançar, cair meu corpo pra trás e saber que vai me segurar. Enquanto isso eu me jogo no vácuo, a ponta dos seus dedos foram substituídas pela brisa que desenha o meu rosto, são nessas horas que eu esqueço dos restos e junto tudo nem que seja por um segundo.

Até o céu brincou com a minha cara ao mostrar que as nuvens também vão embora.

Rua 12

20 mar

Meus pensamentos estão voando entre nuvens de um céu azul. Era eu. Era tu. Já era. E me faz acreditar que eu não devo acreditar em nada, até mesmo o gelo se transformou virando água e tudo se afoga, e tudo se perde, mas se não fosse agora… Mais um amor que não se pede. A única coisa que mudou em toda minha vida foi a estação. Do rádio, do metrô, do ano. Primavera, verão, outono, inverno. O frio chegou até no inferno.

Nisso aparecem as frases prontas e quando tenho a chance de dizer, fico muda, me perdendo -mais uma vez- nas minhas próprias palavras. O direito de ir e vir. O dever de sentar e esperar. Não se sabe de nada, ninguém sabe de nada. Difícil vem e fácil vai, o que o tempo tem, o que nunca sai. Você cuidaria do meu vazio? Você cuidaria de mim? Você ficaria acordado? Você seria você? O você que eu (des)conheci.

Eles dizem que vai passar, vai melhorar, não vão saber, não vão mentir, não vou chorar, não vou fugir. Eu peço todos os dias para não lembrar, mas todos sabem que eu não quero esquecer. Quero passar da fase do ‘eu tentei’ para a ‘eu consegui’. Uma música sem letra, uma garrafa vazia, um carro sem direção, o significado de autodestruição. Casa revirada, fotos rasgadas, papéis espalhados pelo chão. E que raiva apaixonante, quantas pessoas inconstantes, os velhos fatos delirantes, eu só pedi por um instante.

A tua rua sabe até falar, leva meus pés aonde eu não quero chegar, eu vejo tua porta, uma expressão torta, uma vontade morta. Toca campainha, toca, mas toca sem querer, mas toca sem saber, não tem ninguém. Antes eu pedia “meu amor, por favor”, hoje eu só peço mais amor.

Ice Queen (ice cream, sorvete, doce, frio)

5 mar

Eu nasci pra esperar. Se não estou esperando de alguém, espero alguém. Espero uma ligação, espero uma reação, espero parar de esperar. É como se eu mudasse mas continuasse sendo a mesma pessoa. Como isso é possível?! Foram as consequências de andar sempre em círculos.

Assim eu deito minha cabeça no travesseiro, pensando no que poderia ter feito e – mais uma vez – não faço nada. Espere chorar não é estar triste, sorrir não é estar feliz. E me quebro delicadamente com as palavras que você diz.  E com as que não diz, também. Minha mente vazia já está tão cheia de ti. Sim, eu sei que amar não significa ser amado e recentemente descobrir que errar não significa ser o errado. Me chame de pior erro da tua vida, foram com os erros que pude desfrutar das mais diversas lições. Eu te chamei de maior acerto da minha vida e assim não aprendi nada.

E eu que apostava que tinha faturado na loteria, e eu que gritava que continha a maior alegria, e eu que calada, apenas sorria. Tão longe, tão perto, daqui eu não te vejo mais. Tão perto, tão longe, tenho medo de não respirar mais. Realmente, eu tinha a carta trunfo em minhas mãos e de que valia isso se eu até hoje não sei jogar? Eu sinto meus olhos queimarem por assistir o que não queriam, tudo isso pra não saber, não sentir.

Eu. Forte como gelo. Fria como gelo. Transformada em uma poça d’água. Ironia do destino? Não. Apenas destino. Ironia seria se eu acreditasse no destino. Afinal, se está tudo escrito qual é a graça de viver? Foi nessa hora que eu parei de (tentar) prever. E comecei viver como eu queria, não como eu escrevia. Esse era o problema de misturar verdades entre mentiras. Ou eu vivia num mundo de mentiras e me machuquei com a verdade? A mentira dói de uma maneira gritante. A mentira que se faz de verdade dói de uma maneira silenciosa.

E calada eu disse tudo.

Esta noite estarei sonhando com você, assim como ontem. Mas hoje você não acorda do meu lado. Não tem teu perfume, não tem tua voz, não tem tuas caras, mas tem diversos nós. Nós em minha garganta. Nós que não somos mais crianças. Nós que já saímos dessa dança. Eu que ainda tenho esperanças.

Esperando. Esperando. Esperando.