Arquivo | abril, 2011

A vida morreu

17 abr

Ele se aproxima e ainda assim está tão longe, ele não está aqui, mas todos podem sentir. Não é como em filmes em que o começo é inofencivo, o meio conturbante e o final previsível, todas as previsões já falharam, então eu desisti de ser a roteirista. Escolhi a melhor poltrona da sala, estou pronta para assistir. Ah, como eu adoro aquela cena, o telefone toca, eis a questão do atender  ou não. Ligariam de novo? Seria engano? O telefone realmente tocava ou era só mais uma cena em que a próxima mostraria alguém acordando após um sonho? Você não vai ligar se eu deixar de ligar.

Mas como está a sua vida?

Não sei, você está bem?

Eu sei que ele está na fora e olhando por mim, mas existem tantos muros que escondem meus olhos, que escondem minha visão. Eu sei que ele procura não procurar. Era ele, amor. Era ele, meu amor. E todo mundo se calou. Muda, eu estava muda, já que niguém me escuta quando eu resolvo falar. Surda, mas esta casa está surda, com tantos gritos que não souberam parar. Resolvido, vou me esconder, até você me achar, até você me reprender, até eu aprender que você não vai me procurar, que os outros nunca vão saber.

Sábios são os pássaros que sabem a hora certa de voar, sábios são aqueles que vão e avisam se vão voltar. Eu vou fingir, eu vou fugir, eu vou que escrever que não sofri. Como te deixar sem me deixar? Ah, mas eu faria de tudo pra te deixar.

Perto de mim.

Por tanto tempo fui teu espelho, era eu quem te via rindo, agora que os reflexos não são mais teus, eu aviso que estou saindo. Passos rápidos, corpo lento, se não existe sincronia, não existe saída. Permaneço trancada e eu sou a única que posso me libertar. Cadê você? Me flagrei com essa questão. E o silêncio teu me faz ficar, não posso partir sem te ouvir falar, quero tua voz ecoando, mesmo que me atrapalhando, mas eu preciso disso. Só ouço suspiros, então me reaproximo, que saudades dos teus olhos.

Teus olhos foram tudo, o jeito que me olhava quando eu fazia alguma coisa que não concordavas. O jeito que me abraçava com os olhos. O jeito que se despedia com os olhos. Os mesmos olhos que levaram tudo, sugaram minha alma, como se implorassem “guria, fique em casa”. De fato estou vazia, de fato estou farta, de fato me contradigo ao dizer que não quero mais nada.

Você é como um doce veneno. Doce. Mas ainda assim, veneno. Ao mesmo tempo em que me enlouquece, me mata. E eu não quero morrer, não de novo. Eu quis viver com você, por você. Eu quis me perder com você e me perdi de você.  Quanto mais eu vou, mais quero ficar, é como se eu sentisse a distância aumentar. Está tudo fora do lugar, está tudo longe de terminar.

Tudo isso porque não soubemos como começar. É como desaprender a respirar, eu não consigo, mas desmorono só de pensar.

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