Arquivo | maio, 2011

Terceira porta

29 maio

Você tem razão; ao dizer que sou movida a emoção. Falo e não falo, escrevo e apago, sinto e pressinto. Ainda não sei aonde quero ficar, mas tenho certeza que não é aqui. Eu risco no mapa todos os lugares que eu já visitei, eu risco no calendário todos os dias que eu já passei. Mas não passou.

E veja só, você também, a estação quase fechando e escolhemos o último vagão do trem. O som do trilho quase gritando, minha cabeça encostada na janela, mente perdida entre diversos enganos. Perdemos as estações. Do rádio, do ano. Ponto final. Lá se foram as vírgulas do meu estoque. Sente a chuva, sente o frio, sente a música, garota, apenas foque. Não quero lembrar, tampouco me sufocar, não sei se jogo tudo para o ar ou se enfrento sem pensar. Se eu pensar, eu vou lembrar, eu vou querer.. não esquecer, vou te esquecer. Vou me esquecer, nos esquecer. Eu nem me lembro do começo, já tinha sido construído antes de saber. Agora, que ainda está tudo pronto e intacto. Agora, que ainda sinto o gosto. Café quente e amargo.

Queimam as casas, queimam as cartas. Vamos destruir, até mesmo os entulhos, que seja feito até o fim, que seja feito o absurdo dos absurdos. Feita a queda, continua no chão aquele que resolveu parar. Aviso-lhe que o tempo não vai parar. Ouço que está tudo bem. Sendo assim, que mal tem? Mal nenhum. Exceto aquele que nos mantém. E é por isso que não quero mais. Ou quero não querer.

Mas te acalme que o jantar está na mesa, eu já juntei as correspondências e não há nenhuma conta em atraso. Em meia hora começa seu programa favorito, o sofá está completamente limpo, a cerveja está gelada, espera, quem queremos enganar? As janelas estão abertas para que possamos encenar. Feche essa porta e não me deixe voltar.

Não existe amor perfeito, amor eterno, amor sofrido, amor singelo. Existe apenas amor.

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Aqui, não lá

15 maio

Eu fui pra Roma descobrir o tal do amor. Malas vazias. Voltei com a mesma cheia de nada e dor.  Só queremos descobrir, só queremos saber e quando alguém me pergunta, não sei nem o que dizer. Caixas estufadas de interrogações, muitas vezes entram em decomposição com o passar do tempo. E tudo se liga, mas nada nos liga. Você não vai ligar se eu deixar de ligar (de novo).

Alguma vez você parou pra pensar e só pensou naquilo que não queria pensar? E assim sua mente ficou tão cheia de nada, quase te sufocava e não tinha ninguém pra te salvar? Você decorou todas as falas dos meus olhos? Falei, falei, falei. Eu te falei. Me chama de fria, estúpida, grossa, mas não me chama mais. Sim, sou babaca, a babaca que se importou. Ela tem o mundo e não sabe o que fazer, fecha os olhos, respira fundo, acredita que pode resolver tudo no unidunitê.

Guria, mal sabes as armas que tem pra escolher.

Saudade é falta que mais ocupa espaço. E invade assim do nada, nunca se espera, nunca se avisa. Não é perguntar pra onde partiu, mas querer saber quando vai voltar. Julgam o pulmão preto, reflexo do cigarro, mas o teu coração está também. O que importa o número de maços ou se tu não ama mais ninguém?

O vento leva tudo e me deixa aqui, não quero nada, não temo nada. Não tenho o que querer, não tenho o que temer. Se é além de mim que vão escrever. Faça-me como papel e escreva sobre mim, saiba  o meu papel, nem eu sei se sou assim. É o meu rosto que muda, é tua boca muda, é a verdade nua e crua. É a mentira tão oportuna.

Não compro mais ingressos, não quero mais espetáculos, não querem meus aplausos. Volta ou vai embora. Com o teu caminho, com as tuas coisas, com as tuas cismas, com as tuas birras, com as tuas roupas, com o que for teu. É por isso que te peço: Me deixe aqui.

Casa do casal

1 maio

Nós somos um belo casal de TV. Carinhos, frases melosas, flores roubadas, beijos e tanto mais ultrapassando o amanhecer. Até que alguém muda o canal e nós acabamos também. Não há ninguém nos assistindo, você pode acreditar nisso? Deixamos de ser principais e nem como figurante prosseguimos, cansaram da novela, eram muitos capítulos, eram muitos personagens, alguns dias perdidos e o enredo no fazia mais sentido.

Mal sabem o quanto custava decorar as frases, que as flores eram de novelas anteriores. Sem querer deixamos nosso perfume em todos elevadores, e se estou só, eu sinto você, e se estás só,  você me sente, e se estamos a sós.. ninguém desmente. Não sei mais atuar, mas que péssima atriz, não sei mais igualar ser e estar feliz. Outra vez, o mesmo espelho, são os meus olhos que decoram estas canções. Era o som do piano, bar do boêmio, timbre sofrido, era quase um apelo.

Eu te disse, eu te disse que não deveria ter dito nada. Quebrando o silêncio que nos contaminava, andava e andava, mas não saía da calçada. Mais uma vez, em frente a nossa casa que nunca foi nossa, eu gravei a cena que ninguém gravou. Teus olhos, tuas mãos, tua cara, tua boca, mais que coisa louca! Era eu perdida no mesmo elevador.

Some. Mas vê se volta antes de eu não saber diferenciar o teu cheiro do ar, não posso parar de te olhar.