Arquivo | outubro, 2011

Dois

30 out

Eu tenho um certo saudosismo que me  acolhe, besteiras de dizer ‘na minha época’, bobagens do tipo ‘se lembra quando’, tolices do ‘e quando’. Não que eu viva do passado, antes fosse, tenho um presente tão conturbado, mal dá tempo pra me preocupar com o que já passou. Não vai mais passar. Usufruo do antes, como um espelho pro depois, um eterno reflexo unilateral.

Não guardo fotos em cima dos móveis, se lembro, é por lembrar. Não quero um flash antigo me fitando, invadindo minha memória, me forçando a relembrar. Se lembro, não é porque quero, se lembro, não é quando quero, se lembro, é por me faltar. Sabe-se até demais, a falta que a falta faz. E digo sobre a falta a fim de preenche-la, me encho de nada, por estar farta de tudo. Por não ser como eu esperava, não espero mais, deixo me levar, deixo te levar, deixe se levar. É isso que está faltando. Uma certa abstração falta para esse mundo, um certo tom de devaneio, poder rir dos próprios medos.

Ainda que pareça loucura eu sentir o pouco da tua ternura, mesmo assim, tão longe. Tendo os vidros embaçados, a mistura de neblina e chuva, minha direção sem direção. Cada curva suave, tão suave quanto as curvas dos teus lábios, dedilhando o teu sorriso. Encarando assim, tão boba, tendo os dedos entrelaçados com os teus, assim, tão tola. Ô, garota, ô, garoto, quem que parte do mapa nós fomos parar? Os filmes que sempre pareciam tão legais, os diálogos mal ensaiados, os bilhetes quase rasgados. Velhos papéis, que o tempo se encarrega decompor. Me serve como uma biblioteca eterna e independente. Eterna enquanto se perdure. Independente da minha forma de querer. Guardo sim, guardo com carinho, guardo os vestígios.

E da forma mais cega, surda e muda, porém, clara. Me deixando, sem graça, irritada, falante, agoniada, acabada. Apenas me deixando. Num grande abismo entre nós dois e só nós dois. Só.

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Chama

2 out

Eu achava que tinha trancado bem a porta, que não ia mais me incomodar, que ninguém ia mais me incomodar. Crente que era o meu momento, o momento pra mim, viveria da forma que eu quisesse, deixaria de falar quando bem entendesse, dançaria sem me preocupar com teus olhos desenhando meus passos, poderia experimentar os mais diversos perfumes, a ninguém cabia reconhecer meu cheiro. Foi  por isso que noite dessas resolvi conferir a maçaneta. Intacta. E a fechadura em perfeita condição. Bem, como foi que aconteceu? Onde teve brecha?

Ah, mas sempre há uma fresta na janela! Como não pensei nisso antes? Eu te chamei ao desejar um bom dia para o Sol, pois bem, cada manhã se passava e seus raios invadiam o meu quarto. E nisso paro, meio da noite, repentino ataque de sede. Tu estava no meio da minha sala. Tu e tuas malas. Como se me dissesse que pertencia a esse lugar. Ora, mas que louca, eu só queria um copo d’água. Naquela noite eu não dormi mais. Ria de boba, ria de desespero, ria de nada. Permanecia parada, mas vagando nas minhas memórias. Minhas, antes nossas. Deixei pra mim o que não pude te deixar. Você me deixou.

Nisso, veio a dúvida: te chamo pelo nome ou deixo de te chamar? Por essa eu não esperava, na verdade, fazia tempo que eu não te esperava. Sempre assim, marque um encontro no parque, até que vire rotina, o mesmo banco, a mesma hora. Resolva um dia não aparecer. No dia seguinte o encontro é na porta da sua casa. Só que eu mudei de endereço.

E mesmo assim nos reencontramos. Como eu explico isso? Eu que devo explicar isso? É confuso, é intenso. Não é o paraíso, tampouco o inferno. É o nosso espaço, nosso canto. Então, amanhã a gente se encontra no parque? Mas olha, me acostumei com essa mania de mudar o perfume com frequência, vai demorar pra decorar, vai demorar. O encontro das palavras, todas soltas em sintonia, pelo ar.

Espero que não seja uma fogueira. Embora preciso de algo pra se manter, embora pareça forte, embora encante. Espero que não seja uma fogueira. Uma chuva pode apagar tudo, ainda que não de uma vez, há de apagar. Espero que não seja uma fogueira. E espero que me aqueça, mesmo depois de acordar.

Não se separa aquilo que a vida juntou.