Arquivo | maio, 2012
Nota

Ninguém sabe explicar o que é saudade

13 maio

Ora, me diz, então, o que é saudade? É se sentir vazio por inteiro ou perder a sua metade?

Saudade não é ausência, saudade é a presença. Presença da essência de quem saiu do lugar. Por um motivo, muitas vezes, desconhecido. A tua rotina deixa de ser rotina, você não tem mais pra quem dizer “bom dia”. A tua cama tá vazia, você se alimenta de nostalgia.

Não tem hora, nem lugar, ela aparece assim, se deixa estar. Quanto menos a quer, mais a tem. Você quer ficar só e ao mesmo tempo que ter alguém. Você se arrepende todos os segundos por ter escolhido uma música-tema, ela vai começar a tocar e você vai desabar. Tu estufa o peito, segura o choro, porque ninguém gosta de sentir saudade.

Ao mesmo tempo existe saudade boa, é aquela viagem no tempo. Saudade de ficar o dia inteiro no sofá, rabiscando na parede. Saudade do seu desenho favorito que você não consegue entender porque o tiraram do ar. Saudade de quando sua mãe te implorava pra tomar banho, saudade de quanto todo seu dinheiro era pra comprar bala.

O mais louco é quando sentimos saudades do que não vivemos. Isso existe? Bom, quantas vezes você já não treinou as suas falas e não disse nada? Você não viveu, você só prometeu. O sol invadia o teu quarto, ainda que as frestas fossem mínimas. Ela era tua menina, ela era teu amor. Diversos beijos trocados, seria mais se não fosse o despertador.

Nascer e quando crescer saber que um dia vai morrer. E no decorrer de tudo isso você vai se sentir  inútil por não poder imortalizar alguém. Ela se vai, a saudade fica. Uma das piores saudades de todas, porque tudo o que os mantém são as lembranças e isso mexe com a sua cabeça. Tudo vai te lembrar, tudo parece piorar. Mas, ei, não é bem assim, toda feriada há de sarar.

Saudade é a embalagem sem conteúdo, é o lugar sem a pessoa, é um dos sentimentos mais inoportunos, é a sensação que me deixa tola. Eu sinto falta, eu sinto muito, eu sinto saudades em todos os segundos. Eu nego, eu rejeito, ela não desaparece, ela domina meus medos. Saudade pode ser saudável, saudade pode ser uma loucura, saudade é uma agonia que todos sabem a cura (porém nunca a encontram).

E essa busca cansa e no meio do caminho ela some. Você sente saudade de sentir saudade, porque saudade nada mais é do que a prova que ainda existe um sentimento. É preciso dar vazão aos sentimentos. É preciso perder a razão em alguns momentos. É preciso perder o orgulho, nem que seja por alguns segundos, somos uns loucos e assassinos querendo matar a saudade.

Porque se a saudade for recíproca, ela não deveria existir. Mas não é bem assim. A saudade é a fuga: das palavras, de alguém, doçura; por isso tem um gosto amargo, por isso… (suspiros).

E se saudade é o que ficou de quem não ficou, foi por isso que você me matou?

Nota

Turista

6 maio

A gente joga conversa fora por não ter coragem de jogar outras coisas. Suponho que eu já tenha te dito isso, pois se eu não disse, gostaria. Na verdade, eu gostaria de ter te dito muitas coisas, eu tinha todas as falas decoradas. Todas as vezes que eu cheguei, eu não disse nada. Absolutamente nada. Mas minha expressão te contava e quando havia a falta dela, te enganava. Você a quer porque não sabe ficar só, você não a quer porque isso tudo não passa de um grande nó. Ninguém pode desatar, você tem o controle em suas mãos.

E do que adianta zapear o canal se a tua mente é quem te controla? Do que adianta fingir que está legal se é com outras coisas que você se importa? Continuamos a escrever pra quem não vai ler, os outros vão dizer que o remetente é óbvio e isso me assusta. Tenho medo de que seja eu, tenho mais medo ainda de que não seja e assim eu me veja numa história do qual eu nunca participei. Até então uma figurante, de pensamentos confusos, mas sempre falante.

Fala, fala, fala, mas não conta nada. Sempre deixou  tudo pra si. Nisso, chamavam-na de louca e de tão frequente ela aceitou esse papel.  Eu não me dou bem em nada muito escuro ou muito claro, se está escuro eu não te vejo, se está claro eu não entendo. Está claro pra você? Até que eu gosto das dúvidas, até que eu gosto de questionar, tudo pra sentir o gosto de que eu estava certa quando eu deixei estar.

Deixa estar, no porta-retrato, na sala de estar.

Droga, eu me entreguei, droga! Acertei a tua porta, acertei a tua nota, desconfiei da tua melodia. Era noite porque eu não aguentava a luz do dia. O problema da luz é que quanto mais a tenho, menos enxergo. A tua luz é a minha escuridão. Quanto mais fecho os olhos, mais abro o coração. Reluto contra mim, preciso de um café. Preciso de algo forte, quente, que queime a minha língua e me desconcentre. Você passou pela minha frente. Deixou teu cheiro, tua marca, me deixou. Você me deixou. Você a deixou.

Ela era tudo o que você queria, quando a conseguiu por completa, resolveu querer outra coisas. Você quis perdê-la. Você me encontrou. Quando eu não queria te encontrar, quando eu não sabia o que falar, quando eu não queria te soltar. Não faço parte desse mundo, não faço parte dessa cidade. Inteiro nos partimos em busca da outra metade, mal sabemos que é essa busca que é o que realmente nos parte.

O problema de eu não ter um mapa é o risco que corro de me perder no meio do caminho.