Arquivo | fevereiro, 2013

Máscara

10 fev

Estava lá, mais pra cá do que pra lá. Estava escuro, quase não se via ninguém, mas estava claro que aquele lugar estava cheio. E a música gritava no ouvido e todos e cada um reagia conforme o seu ritmo. Eu escolhi meio que ficar parada, só analisando. Nunca tinha ido lá, não queria estar lá, não queria voltar pra lá.

Você me achou. Mas agora ouso dizer que te achei. Fiz nossos olhos se cruzarem, fiz você ter vontade de chegar perto de mim. Aumentaram o volume, parecia até proposital, você teve que me puxar pra perto e assim conversaríamos alguma coisa. Segundo o relógio, já era hora o suficiente para perder o juízo. Mas eu me fiz. Ainda estávamos no meio daquele loucura, você beijou a minha mão. Eu ria, você reclamava. Eu só olhava, você também reclamava. Eu confessei: gostei de ti.  Você ficava sem palavras.

Trocamos o meio pelo canto. Você falava dos meus olhos, do meu sorriso, você falava que eu era incrível. Próxima música. Você falava dos meus olhos, do meu sorriso, você falava que eu era incrível, você dizia que estava apaixonado e que sabia que eu não ia acreditar. Eu falei que o enredo era bonito, mas que tava cansada de escrever livros. Você me pediu um beijo, sabendo que eu detestava isso. Mas eu disse “sim”.

Horas no mesmo lugar, entre as pausas eu via todo mundo nos olhando, mas não olhava no olhos de ninguém. Só nos teus. Você dizia que não conseguia mais olhar nos meus porque eles te deixavam louco. Eu segurava teu rosto e te obrigava a me olhar. Você perdia o controle, eu te comandava, pra depois entrar na sua e me perder também. Você me abraçava. Você apenas me abraçava e eu me sentia protegida. Merda.

E aquele lugar foi se esvaziando, como se me alertasse que a hora estava chegando.

– Tô indo.

– Tá.

– Tá?

– É.

Eu continuava irredutível. Eu para um lado, tu para outro e eu não senti nada. Mas você fez o pior, você voltou e disse que queria se despedir. De início, eu não entendi. A chuva nos pegou de surpresa, na hora não fazia sentido. Finalmente: eu e tu. Tua mão apertando a minha.

Paramos no meio do caminho, rua vazia, cheia de más intenções. Eu precisava das suas palavras, você as dizia na hora exata. Amanheceu. Nenhum dos dois tomava a iniciativa de dizer alguma coisa. Nos calamos pela primeira vez. Eu sabia que estava na hora e deixei isso escapar, você concordou, só com gestos. Me deixou na porta, me abraçou e.

Bem.

Se todo Carnaval tem seu fim, não me admira que o que começa antes dele, na verdade nunca começou.

Haverá

6 fev

Haverá alguém não vai te deixar dormir.

Haverá alguém que vai te acordar na hora errada.

Haverá alguém que vai te deixar falante.

Haverá alguém que vai te deixar muda.

Haverá alguém que vai te aquecer.

Haverá alguém que vai querer arrancar a tua roupa.

Haverá alguém que vai te ligar no meio da noite.

Haverá alguém que vai te fazer checar o celular só de ansiedade e não mandar nada.

Haverá alguém que vai te fazer amar uma música.

Haverá alguém que vai te fazer odiar uma música.

Haverá alguém que você mora no abraço.

Haverá alguém que você quer bem longe do seu espaço.

Haverá alguém pra te fazer cafuné.

Haverá alguém que se chega perto, você já fecha cara.

Haverá alguém te fazer a pessoa certa.

Haverá alguém pra te dizer que você é toda errada.

Haverá alguém que você vai escrever mil cartas.

Haverá alguém que vai arrancar todas as suas palavras.

Haverá alguém tão doce.

Haverá alguém que, quando ausente, te deixa salgada.

Haverá alguém que te faz viver.

Haverá alguém que você vai querer matar.

Haverá alguém que vai te fazer bem.

Haverá alguém que tu vai ficar mal.

Haverá alguém que vai perder a batalha.

Haverá alguém que vai te fazer lutar.

Haverá alguém que te arrepia com um sussurro.

Haverá alguém que vai te fazer gritar.

Haverá alguém que olha nos teus olhos.

Haverá alguém que tu olha quando fecha os olhos.

Haverá alguém que vai te dar razão.

Haverá alguém que vai te fazer perder a razão.

Haverá alguém pra toda vida.

Haverá alguém que não dura um dia.

Haverá alguém que te chama de ‘amor’.

Haverá alguém que cutuca a tua dor.

Haverá alguém que vai te fazer dançar.

Haverá alguém que vai te paralisar.

Haverá alguém que você vai perder.

Haverá alguém vai que te achar.

Haverá alguém que vai te fazer sorrir.

Haverá alguém que vai te destruir.

Haverá alguém que vai chegar do nada.

Haverá alguém que vai sair e fazer questão de avisar.

Haverá alguém que vai te fazer suspirar.

Haverá alguém que vai te fazer só pirar.

Haverá alguém em cada esquina.

Haverá alguém no mesmo lugar.

Haverá alguém que vai ser tudo isso.

Haverá alguém.

E, ao meu ver, há.

Navegantes

2 fev

Se me perguntarem quando começou, não sei responder.

Mas tá acontecendo e não é de hoje. E chegou na fase – a pior e melhor fase – que virou rotina. E percebi que numa dessas fiquei 120 horas sem te ouvir e percebi o mal que é a dependência. Eu tinha uma boa noite, mas não o teu “boa noite”. Tava tudo bem, mas tu não perguntava “e aí, tá tudo bem?”.

Eu sei que a culpa não é tua, mas ainda assim vou te culpar. E se eu te digo que estou confusa, é por não saber aonde isso vai chegar. Mas vem cá, vem e fica. Fica me dizendo o que tu diz todos os dias, mas fica também sem dizer nada. Me deixa sem graça, me deixa irritada, só não me deixa e que assim seja.

Vem me salvar? Das minhas loucuras e das noites mais escuras. Traga o frio e eu te trago meu calor. Eu sei que você pode me salvar, eu sei que só você pode me salvar. Tira esse gosto amargo da minha boca, tira esse gosto de sal. Tira essa saudade. Me devolve todos os abraços que eu te dei. Deixa teu cheiro, sem querer, nas minhas roupas.

Pra depois eu pedir de novo: vem, vem e fica.

E bem, meu bem, eu sei que é imenso esse oceano e que podemos nos afogar a qualquer momento. Também sei que nadar, nadar, nadar cansa. Eu também busco nossa ilha pra que tudo faça mais sentido. Isso é tão novo pra mim quanto é pra ti. Resta saber se só eu vou apostar nessa história ou se vai ser só uma crônica anual.

Saiba que nesse tempo ausente eu não parei de escrever. A verdade é que de uns tempos pra cá, todos os meus textos tem ficado pela metade porque eu não consigo nem imaginar o (nosso) fim.

Ao mar.

O mar.

Amar.