Arquivo | junho, 2013

Rotina

22 jun

Todo dia é a mesma coisa. Primeiro o banho, depois o café. Como se fosse mais importante tirar qualquer vestígio de uma noite mal dormida do que sentir algo forte em sua língua. A roupa já estava previamente separada, o mesmo combo que a tornava mais uma pedestre matinal.

Sai atrasada propositalmente, mas isso não tira o direito de ela reclamar do trânsito. Seu ônibus nunca chega e o celular fica na mão. Nenhuma notificação. Atualiza, atualiza, atualiza. Não há nenhum “bom dia”. Da mesma maneira que não houve nenhum “boa noite”.

Metodicamente o cartão do ônibus está no bolso direito e o trocado de prevenção, no esquerdo. O primeiro ônibus chega, num dia de azar, não passa nem da catraca, num dia de sorte ela consegue encostar em um canto, num dia raro ela está sentada.

Era um dia raro. Sentou e deitou a cabeça no vidro, nunca dormiu por medo de perder o ponto. Por dentro estava na contra-mão, queria voltar, queria bater em tudo, estacionar num lugar proibido, nunca mais parou de beber porque se odiava sóbria.

Era seu ponto, seu ponto fraco. Tinha a cara fechada e um coração aberto. Tão aberto que estava vazio. Mas cheio de esperança, de que pelo menos hoje ia mudar. Uma mensagem? Quem sabe. Próximo ônibus, viagem mais curta. Ela nunca se esqueceu de dar “bom dia” para o motorista e para o cobrador. A viagem era curta, mas era mais brusca. Em cada curva, um tropeço. E isso só alimentava ainda mais o seu mau-humor matinal.

Primeira a chegar no escritório, nunca acendia as luzes. Só pensava na sua cama e em quanto tempo faltava pra voltar pra lá. Fazia o que amava, mas algo lhe faltava. Era a rainha das piadas, ninguém nunca desconfiou se ela teve um dia ruim. Então diziam que ela era uma mulher forte e, de certa maneira, isso a motivava.

Nos seus pensamentos, toca o sino. Bate o ponto, volta pro outro. A manhã fria é abandonada por uma tarde quente. Segurar a jaqueta e reclamar do peso ou ficar de jaqueta e reclamar do calor? Não há árvores nessa cidade, enquanto ela fecha os olhos e só vê sombra e escuridão. Mal sabem, mal sabem! Mal aguentariam ouvir a metade. Então calou-se.

Volta pra casa, desliga o celular, não quer ser encontrada. Perdeu a vontade de ir pra cama, sabe que se voltar, não vai conseguir levantar. O dia tá longe de acabar. Procura notícias, mas não é no jornal. Um cachecol de sufoco aperta o seu pescoço no fim da tarde e o rádio não muda de estação. Vestiu o seu melhor clichê, era o começo da noite.

Sorria de canto, andava sem olhar para os lados. Suspirava e pirava muito. Menina doida que não tinha medo de ouvir nada, mas morria de medo de viver no silêncio. Uma sala e horas que não passam. Volta pro celular. Nada que a interesse. Esperava uma resposta sem ter feito uma pergunta.

O começo da noite e o fim de tudo. Antes de dormir, jantou uma porção de orgulho e não conseguia fazer a digestão. O celular alertou uma nova mensagem e conversou como se não tivesse acontecido nada. Um gelo ou dois, depois não aguentava e derretia. Mais uma noite mal dormida estava por vir.

Tocou o despertador.

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Revolução

12 jun

Encontrar alguém ou deixar-se ser encontrado? 

Eu já tive a pachorra de dizer que nada, nem ninguém, me atingiria. Eu não me permitia, criei um alter ego que saía pelas avenidas, enquanto eu nunca saí do meu quarto. Mas da minha janela eu via tudo, a mesma janela que ninguém me via.

Eis que quando eu já estava tão alterada que não sabia mais se era eu ou meu alter ego. Te reconheci, porque até agora não posso dizer que te conheci. Tatuei um sorriso no rosto e quando eu não quero que o vejam, cubro-o com uma máscara. Eu tenho medo. Largando os bons modos, eu tenho um medo do caralho.

O mundo que grita “deixa disso, menina, se entrega”, é o mesmo mundo que eu não consegui abraçar. Mas é você, essa ilha isolada e que não assume que isso é utopia. Mas é você, esse guerreiro sem arma que também achou que nada te atingia.

Não pode ser, também fomos laçados pelo clichê. Se eu corro, você foge. Se eu fujo, você corre. Atrás de mim. E por que isso? Se tem um lugar do meu lado. E por que isso? Se, assim  como você, eu não me preocupo com o calendário. Mas ao mesmo tempo não quero suspirar por dias passados que nunca mais se repetirão.

Eu gosto de você, mas gosto mais de mim. Não que isso seja ruim. É que meu pessimismo bate na minha cara me lembrando que independente do que aconteça, no final serei só eu e porta-retratos sem retratos. Mas é só te ver e morder minha língua. Só pra não assumir: que estou perdidamente apaixonada.

Ao mesmo tempo, se depender de mim, eu nego até o fim.

Ao mesmo tempo, pra você eu digo “sim”.

Porque num dia como hoje, eu só posso te desejar um feliz dia. E que amanhã ou daqui um mês ou até mesmo em outra vida, eu faça parte do teu.

Você roubou o meu melhor eu.

Agora cuida.