Arquivo | julho, 2013
Nota

Lembre-se

30 jul

Pode parecer besteira, mas eu consigo achar graça em cada traço teu. Você acha que eu não sei quando você está me olhando, até eu me entregar quando eu sorrio de canto. Aí você vira a cara e me faz dar risada. Assim como quando você hesita em segurar a minha mão, talvez por medo de rejeição, então eu estendo a minha e você me puxa.

Você tem algo especial que eu ainda não descobri. Me desculpe ser tão sincera, mas você foi o único que não enxerguei como alguém descartável. Alguém que por uma noite seja o suficiente. Eu tenho certa necessidade de você. Mas longe de ser obsessão, até porque eu tô longe de te ter todos os dias. Eu tô mais longe do que os outros imaginam. Eu tô muito mais longe do que eu queria.

Nós temos a mania de conversar pelo silêncio e pela distância. Eu, toda jogada, no sofá e você encostado no corredor entre o banheiro e o quarto. Eu mexo no meu cabelo por pura provocação, seguida de uma pequena mordida no lábio inferior. Você está só me observando, achando que é discreto.  Eu levanto e passo por você. Passo reto. Você vem atrás e eu finjo que estou surpresa. Uso a minha melhor máscara de indiferença, enquanto por dentro grito ‘me beija, me beija!’.

Todos já notaram a diferença.

Meu bem, eu tenho interesse sim em saber a sua cor favorita. Aliás, também quero saber se você canta no chuveiro. Me conta, você também seria mais feliz se amor pagasse as nossas  contas? Já pensou em ter filhos? Sabia que sem querer querendo eu vi que teu signo combina com o meu?

Você não faz ideia, mas até bravo você me faz suspirar. E fico com mais vontade de rir porque sei que você vai ficar mais bravo ainda. Falando nisso, você não tem ideia de como eu seguro minhas crises de riso na sua frente. Eu sei que te incomoda, que te intimida de alguma forma. Mas saiba que nunca foi a minha intenção. Eu queria que você se sentisse seguro o suficiente para encarar os mais mirabolantes sonhos que criei pra nossa realidade.

Eu tenho tanta coisa pra te dizer, mas morro de medo de você me acha atrevida – ou louca. A verdade é que nós dois somos inseguros, mas quando estamos juntos, força é o que não falta. Ao mesmo tempo, gosto quando você torna o beijo mais lento. É como se eu pudesse aproveitar ainda mais o tempo que eu passo com você.

E o que eu posso fazer? Se eu já gritei pra todo mundo, mas não tenho coragem de sussurrar isso na frente de você.

Mais uma vez, a história sobre dois onde só um entende.

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Síndrome do escritor

17 jul

Uma folha em branco me encarava da mesma maneira que teus olhos, um dia, me encararam.

O saudosismo é um mal que me consome todos os dias. E de brinde veio uma dose de masoquismo que eu boto culpa no subconsciente. Comecei a ouvir a sua banda favorita e lia todas as nossas lacunas vazias. Tudo o que você não me disse, eu inventei. Tudo foi uma história sobre dois, escrita por um.

Cada parágrafo continha mais emoção do que o anterior. Era tão forte quanto os momentos em que ficávamos à sós. Você sempre detestou plateia e eu sempre detestei expôr meus contos. No bar, entre amigos, muitos risos. Num quarto, entre quarto paredes, muitos suspiros. Todos os dias, ao acordar, tomo um gole de saudade e a digestão não é feita. Tenho plena noção do seu veneno e ainda assim, insisto.

O mundo é muito maior do que uma sexta-feira regada à cerveja. Eu pintava meus lábios de vermelho, anunciando uma guerra. Meus olhos se revezavam entre o verde e o azul, de tal maneira que te hipnotizavam e você, calado por natureza, era apenas silêncio. Cada movimento meu era previamente pensado, cada provocação dita era previamente decorada, você era o personagem, eu te manipulava. Chegava em casa, de maquiagem borrada e só pensava em gritar: “mas que merda, ele me tem em suas mãos”.

Não é fácil lidar com a própria invenção. Eram dias e dias, carregando a máquina  com expectativas, traçando planos, arrancando panos, mas, acima de tudo, negando tudo o que sentia. Eu nunca fui dessas mulheres que se lamentam para o público, mas bastava um dia em silêncio pra dizerem que eu mudei. E o que aconteceu? Nada.

A força de um soco no estômago e o som de um tapa na cara. Nunca aconteceu nada. Porque você não tinha a intenção. E, meu bem, eu não vejo a hora de te superar e poder te chamar de minha melhor invenção.

Terminal

9 jul

Prometo que só estou de passagem e que a minha próxima viagem já está marcada. Já estou acostumada com esse faz-e-desfaz de malas, a correria dos aeroportos e os hotéis não conservados. Estou acostumada a não ter guia e seguir pra onde bem eu quero. 

Ao mesmo tempo, eu não passo mais de um mês no mesmo lugar. A rotina me incomoda, o previsível não me atrai. E pela primeira vez encontrei um destino que me fez ficar mais. Pensei até em procurar um mapa, mas isso ainda é estranho pra mim.

Caminhei por trilhas sem asfalto, eu não falava a língua local. Era só mais uma turista que não se satisfazia com metades. Na praias nunca molhava os pés. Ou ficava na areia, ou mergulhava. Por mais fundo que fosse, por mais revolto que aparentasse.

A turbulência de um avião, o cansaço da estrada e a tontura dos mares. Eu tinha de tudo um pouco. Inclusive, tinha vontade de ficar. Mas não, preferi deixar um pouco de mim e voltar pra casa.

A bagunça só é perceptível quando o furacão vai embora. Estava tudo fora do lugar e eu não tinha ideia de onde eu podia começar. Esse é o mal dos aventureiros, sempre se satisfazem até mesmo com o caos.

Percebi que eu não conseguiria viajar pra outro lugar sem associar ao lugar em que eu estava. Os que fazem parte do meu barco, precisam de férias ao contrário. O tempo livre é pra viver o que os outros chamam de rotina, enquanto os outros passam seu tempo livre viajando.

Feito o desencontro, feito o desencanto. Ainda não me achei na nossa bagunça.