Arquivo | outubro, 2013

Eu ainda não tenho habilitação

25 out

Eu sinto sua falta. Eu sinto falta todos os dias. Eu não quero sentir mais nada.

Tira esse sentimento de mim?

Tira suas coisas da minha casa?

Tira esse sorriso da minha cara? Já tirou.

Você também se lembra de coisas que não queria? É ilusão minha acreditar que por pelo menos alguns minutos estávamos sincronizados e queríamos a mesma coisa? Ou já era mais do que previsível a bifurcação prematura. Coincidência ou não, segui pro lado esquerdo e tenho passado por trilhas desconhecidas. Mas ao menos ando com a certeza de que não haverá reencontro. Não que seja bom… tampouco ruim. Mas convenhamos que é a primeira vez que tenho indício de alguma certeza.

A tua subjetividade, de certa forma me encantava. O teu não querer dizer, mas morrer de vontade que alguém confessasse que queria saber. A tua distância milimetricamente planejada. A tua mão estrategicamente posicionada. A tua subjetividade, de certa forma me adoeceu. O teu humor indefinido, as suas declarações pela metade, as suas mentiras fantasiadas de verdade.

Eu não quero que você entenda, eu não quero que ninguém me entenda. Meu bem, eu não nasci para me explicar. Eu te avisei que estava só de passagem, você me pediu pra ficar. Fiquei. Na primeira carona, você garantiu seu lugar. Enquanto eu, sentada à beira do caminho, sem entender nada. Fiquei desolada. Não passava mais nenhum carro, não passava mais ninguém, você não voltava. E foi quando eu resolvi seguir, você reapareceu.

30 segundos sem reação. A minha boca entreaberta demonstrando perda de controle da minha respiração. E você não disse nada. Você não se explicou. Você não perguntou como eu estava. Tempo o suficiente para eu entender que da tua carona, eu era só o estepe. Você só me procura quando tem algum problema. Você só me procura quando não tem ninguém. Não serei hipócrita de dizer que eu também não viajei por aí. Mas curvas sinuosas me deixam enjoada, não durava muito e eu pedia pra voltar.

E cá estou, deitada à beira do caminho. Esperando o próximo carro me atropelar. Só assim pra alguma coisa mudar. Eu gosto o teu perfume, mas agora prefiro o cheiro da gasolina. Eu gosto da sua leveza, mas agora eu preciso estar a 200 km/h. Deixa eu me acostumar com a ideia de dirigir sozinha. Deixe eu digerir a ideia de que mais vazio que essa estrada, só a tua vida. Porque a minha, motorista, a minha vai ser asfaltada e tirada do mapa. Para que ninguém mais possa passar.

Mas vê se passa, algum desses dias ou em outra vida.

Trilha

17 out

Eu tenho tido dias cheios de palavras que não digo, de palavras que não escuto.  Então, deixa eu dizer, mesmo que não seja pra ninguém. O vinil já está rodando e eu não sei como começar. Respiro fundo e fecho os olhos. Mas falta algo – eu tenho sentido a falta desde aquele dia – desde então sou um quebra-cabeça sem solução.

Um bilhete na geladeira, afirmando que já voltava. Mais previsível, só se acrescentasse que era pra comprar cigarros. Só consegui rir de nervoso e acrescentei um “eu também”. Queria voltar e te passar um  número errado, queria voltar e mentir o meu nome, queria voltar e dizer que já estava de saída, muito antes de você aparecer. Preferia ter guardado algumas horas no meu bolso do que ter que carregar esses dias na minha vida.

Espera, você se lembra dessa música? Ela tocou exatamente na hora certa, no lugar errado. Espera, você ficou com a minha blusa? Eu achei que esse falso inverno eu já tinha superado. E nisso vem a brisa gelada, bagunçando meus cabelos e me fazendo implorar por um abraço. A rua mais fria dessa cidade está localizada onde ninguém atingiu, alguns chamam de “meu coração”. Não recomendo a visita, não servem nem um mísero café.

Não serve para nada. Mais uma dúzias de palavras, jogadas pela janela. E tem gente que acha que é chuva e faz de tudo pra fugir. Minhas palavras não atingem mais ninguém desde o dia que te tornei meu alvo. Eu acertei a sua cabeça, mas deveria ter acertado os seus pés, impedindo você de não poder ficar.

Fica mais um pouco? Você é a única pessoa que gosta desse meu jeito de não conseguir calar a boca. Fica mais um pouco? Você é a única pessoa que eu gosto que cale a minha boca. Eu não sei dançar, você também não, existe algo mais engraçado do que o jeito que todos olham quando você segura a minha mão?

Melodia suave, letra forte. Estávamos no mesmo ritmo, pensávamos. Na verdade não tínhamos ritmo algo, contaram. Eu podia jurar que havia sentido uma sintonia e que tudo caminhava bem. Você parece aquela banda de garagem que só eu ouço. Enquanto eu sou aquele livro que só você leu. Se eu te cantar, você vai me escrever? Se eu te dançar, você vai me ler?

Não quero saber dos outros, quero saber de você.

Escrever-te-ei enquanto puder

13 out

Não deveria ter passado de uma noite. Não deveria ter sido diferente dos outros. Eu não queria saber teu nome – que desde então não se desfaz dos meus pensamentos. Eu não queria saber nada sobre você. Eu não queria.

E do que adianta arrastar uma noite que não vai se repetir? Se já sabemos que não vai ser a mesma coisa. Por que demônios nós insistimos em algo que não existe? E mais uma vez, você vai tentar me convencer, vai me dizer “por favor, acredite” e eu não consigo mais mentir. Mais uma dose dessa asneira e é capaz de eu me matar. Mas entre nós dois, prefiro você.

Eu detesto essa falsa liberdade, eu nasci pra voar, eu não quero tuas verdades. Eu não acredito em ti, eu não acredito em ninguém. Minha fé é diferente das outras pessoas. Tenho um mundo paralelo onde tudo é perfeito. Onde ninguém entra, inclusive eu, já previamente sei que nunca iria sair. E entre viver uma realidade que te espanca e uma fantasia que te acarinha, fico com o sangue escorrendo, mas fico viva.

Por mais que doa, melhor assim. Chega dessa nossa cegueira, nós não vamos sair do lugar. Ou pior, nós não pertencemos ao mesmo lugar. Eu gosto de correr, eu não permaneço mais que uma semana no mesmo canto, enquanto você está no mesmo há anos. Deve ter sido isso, sem querer, eu invadi o teu canto. Eu tô de saída – eu nem devia ter entrado.

A questão é justamente essa, eu gosto do que não posso.

Mas conto com um tapa da realidade, um chute no estômago – invadido pelas borboletas -, assim que elas voarem, entendo que não posso gostar de ninguém mais do que eu gosto de mim. Então, um beijo, se cuida.

Como em todas as noites. Como em todas as loucuras.

E eu sei que essa dor não é só minha. Por isso escrevo.

E eu sei que eu devia ter desistido na primeira linha. Por isso ofereço.

Mais um texto, mais um drama, mais do que isso: nada.

A realidade espanca, a saudade mata.

Permaneço viva.

Acontece.

Quem é?

6 out

Somos um filme que não agradou, nos tiraram de cartaz. Somos uma música que nunca emplacou, você não me escuta mais. Somos o perfume que nunca agradou, o teu cheiro eu nem me lembro mais.

Nós fomos feitos para dar errado desde o começo. Nós fomos feitos para acertar alguns tropeços. Eu já imaginava que eu ia cair, mas não tão cedo. Eu caí, na tua mentira, na tua palavra, nos teus braços. Você não me levantou. Ah, quem dera poder voltar naquela vida em que não te conhecia.

Trocam as cartas, próxima rodada, o jogo mudou. Eu perdi, perdi tempo, perdi meu sono, perdi os outros, mas não te perdi – nunca ganhei. Doce ilusão que tivémos todos os dias, amarga realidade que criamos com pseudo expectativas. De quem é a culpa? Espero que seja sua, porque na minha mala não cabe mais nada.

Quero partir sozinha. Você partiu para onde nunca devia ter saído. Olhe em meus olhos, não te vejo. Nem quero ver. Mais um assassinato proposital para a minha coleção. É só um corpo, é só carnal, não leve a mal, eu não quero mais jogar teu jogo.

Meu bem, se eu pudesse escolher, eu não teria te escolhido. Meu bem, se eu soubesse entender, eu não teria dito. Meu bem, se tu tivesse que dizer, teria fugido. Tão previsível.

Você se diz tão diferente, mas é igual a todo mundo. Esqueça quem eu sou, esqueça o que passou, se é que já não fez. O que a gente começou não passou de um rascunho feito a lápis em uma folha fácil de rasgar.

E se um dia eu te reencontrar, fique tranquilo, eu saio do caminho.

Mudamos de calçada.