Arquivo | novembro, 2013

Paz

3 nov

E você prometeu me deixar em paz

Como quem promete não quebrar mais um dos vasos que a avó colecionava. Como quem soubesse definir o estado de paz. A tua segurança ao dizer me garantiu uma boa noite de sono. E eu dormi pensando em como eu estaria feliz por ter a minha paz. E ela era ainda mais linda, pelo simples fato de ter sido oferecida por você.

Não parece até uma promessa de amor? Alguém que acaba de chegar na sua vida, segurando tua mão com firmeza e garantindo a calmaria que só um mar, de uma praia abandonada, poderia oferecer? As nuvens brancas colorindo o céu azul, as gaivotas e o sotaque do sul. O chinelo que eu não posso usar em plena Avenida Paulista. As tatuagens que a gente esconde por esse nosso jeito de fuga da onda dos criminalistas.

Eu desejava para minhas amigas alguém como você. Eu me sentia com 15 anos na cara e 80 nos pés. Porque tu me rejuvenescia e ao mesmo tempo sentia que a gente se conhecia e se reconheceria por toda a eternidade. Era tão lindo e ridículo o jeito que meu cabelo ficava bagunçado e você suspirando que preferia mil vezes assim. E eu acreditava. Acreditava, mas não confiava. Tudo o que você me disse tá guardado aqui, no meu bolso. Tudo o que você não disse tá guardado lá, na minha gaveta.

A caiçara que compreende que ninguém usa short em cidade que não tem praia. A caiçara que é mais branca do que quem mora na cidade que não tem praia. A caiçara que a única semelhança, é falar “tu” de maneira errada. Mas tu sabia disso. Tu, os outros e todo mundo que um dia ousou entrar no mundinho dramático dela. E que enquanto outros estranhavam o fato de as suas pupilas estarem sempre dilatadas, tu notou que havia um brilho entre o verde e o azul.

E, ainda que eu adorasse o fato de acordar sabendo que ia encontrar o tem bom dia, no fundo o meu maior desejo era que tivesse sido apenas uma noite. E teria sido aquela noite que eu lembraria todas as noites. E teria sido a noite mais incrível da minha vida. Tão incrível quanto brincar com os meus dedos entre os teus cabelos e você fechar os olhos, como se não se importasse com o quão errado nós somos. Nós somos errados, tu deveria ter me ouvido, nós só daríamos certo por uma noite.

Ainda assim, me lembro todos os dias. Quando eu menos espero você está, naquela música do aleatório, naquele bilhete depressivo, na sala de estar. Bem que eu gostaria, que você estivesse lá. E eu teria te dado o meu melhor último primeiro beijo. E eu teria eternizado o meu perfume no teu travesseiro.

E você prometeu me deixar em paz. Mas você só me deixou.

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