Arquivo | dezembro, 2013

E não

16 dez

Não me segure desse jeito de novo. Eu nem me lembrava mais como era. Eu nem lembrava mais como eu queria que fosse.

Eu estava quieta, no meu canto. Observando o horizonte e o pôr-do-Sol que se atrasava, tornando o nosso dia  maior. E como sempre, meus olhos mal se abriam por conta da claridade. Eu só queria estar só. Me acostumei com a tua condição de ser uma lembrança que guardei na minha gaveta favorita. A gaveta que eu joguei a chave fora porque tinha certeza absoluta que nunca mais reviveria.

Eu tenho os pés cheios de areia e meu cabelo bagunçado. Eu tenho um sorriso na cara que não havia mais encontrado. Eu não tenho ninguém. Estou em pleno corredor, trancando todas as portas que passo. Esse é o meu jeito de encarar o passado sem cair na tentação de voltar pra lá. Primeira porta, segunda porta, terceira, quarta, quinta. Não minta. Não de novo.

Engraçado como os seres humanos não sabem perder. Eu bailava no centro, rodopiava no ritmo do vento – com os olhos fechados – eliminando qualquer chance de nossos olhares se cruzarem. Mas eu sorria de canto, porque tinha certeza que você me assistia. Eu nunca deixei de ser observada. Ainda estou cheia de palavras.

Não me prometa mais nada. Eu não quero ouvir. Eu só quero você aqui, entendendo que o silêncio seria a nossa melhor escolha. Acredite em mim, eu mudei muito mais do que você. A tua falsa ideia de me fazer feliz, causou-me umas centenas de cicatrizes. Percebe que eu não me entrego? Percebe que eu me esquivo? Percebe que desfiz qualquer laço? Permito-me ser uma linha única e infinita. E não pretendo me amarrar de novo.

Antes de passar em casa. Passe pelo o que eu passei, nessas incontáveis horas, me enchendo de vazio.

I’ll be waiting.

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Viveiro

6 dez

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.

Partindo desse princípio, fica óbvio que eu sou o pássaro que voou. E dentre todas as nuvens que eu perfurei e as chuvas que tomei, não criei ninho em nenhuma árvore. Em todos os lugares eu estou só de passagem. E meu egocentrismo permite-me afirmar, nunca passei em branco em nenhum lugar.

Sei a quantidade de olhos que me fitam milimetricamente quando abro as asas e semicerro os olhos como um gavião quando encontra sua presa. Mas a escolha é minha. Única e exclusivamente minha. Eu não permito que ninguém ouse escolher o meu alvo. Mais do que isso, eu não permito que ninguém escolha o meu alvo.

Enagana-se aquele quem afirmou que me colocaria em uma gaiola. Isso não é pra mim. Quem aprender a voar cedo não se acostuma com a prisão. Sendo essa minha liberdade o que me prende. Porque enquanto deitam na grama e olham para o céu, lá estou. Bailando num azul límpido e mais tarde o alaranjado que cobre a praia e alcança a cidade grande. Lá estou, no horário de sempre.

Posso não ser aquele canário que canta todas as manhãs, ou o beija-flor que escolheu o bebedouro da tua casa. Também não sou andorinha, vivo sozinha e não gosto do verão. Talvez eu seja a fênix, que só a mitologia explica. Talvez eu tenha renascido tantas vezes que nem eu sei mais sobre a minha vida. Minhas cinzas anunciando um novo legado. As tuas, anunciando o fim do cigarro.

Você percebe a diferença? Fomos feitos para dar errado. Você precisa viver pra morrer. Eu preciso morrer pra reviver. Não tente me matar, é inútil. Você não foi o primeiro, você não vai ser o último. E se for o contrário… e se eu tentar… é o fim na certa. Ninguém pode te salvar.

A tua solidão é maior que você. A tua vida é uma mentira. A tua gaiola está vazia. Você acha que tem algo em suas mãos, meu bem, você criou sua própria prisão. Enquanto eu, bem, eu tenho o céu, eu tenho a imensidão.

Elas passarão. Eu. Pássaro.