Arquivo | janeiro, 2014

Opcional

29 jan

Trago o seu amor.

Numa puxada só.

Foi direto para o pulmão.

Ele responde com a tosse persistente, pobre homem chaminé.

 

Trago as rosas.

Um ramalhete enorme.

Mal cabe em minhas mãos.

Se não cuidam, de repente, é só uma lembrança pra sua mulher.

 

Trago, também,

 A dor imensa em meus olhos.

De quem se perde na multidão.

Mentiu ao dizer que não mente, mentiu ao dizer que quer.

 

 

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Sete passos

26 jan

Feche os olhos. Você está mudo. Me segure pelo pulso. Você não muda.

Eles dizem “você é maior do que tudo isso, você é uma pessoa de bom coração”, eu digo “eu sei”. Eu digo “eu não mereço isso”, eles dizem “sabemos”.

Você sabe? O que eu abandonei no meio do caminho pra poder te ver? Você percebeu que o tempo tá acabando? E que se eu for embora, não vou me despedir? Em algum desses dias você entendeu que é certo que vamos dar errado? Baby, eu não sei mais te abraçar. O teu corpo não se encaixa mais com o meu. A minha fala não se completa mais com a tua. Caminhamos até alcançar a bifurcação.

Agora você tenta me dizer e eu te dou toda a atenção do mundo. Alguém chega e você desiste. Covarde. Quando estávamos lá – eu e tu – tu estava cheio de coragem. E mentia ao pé do ouvido por todas as madrugadas. Mas o seu amor é como um tiro, único e certeiro, mas me mata. Não sei nem se de amor posso chamar, essa sua doença que contamina qualquer um. Você não sorri, você não se permite sentir, você foge, você se arrepende e volta. Você quer tudo e todos nas suas mãos.

Seja tolo por mim, porque eu sou cruel por você.

Houve o dia em que eu era só uma menina, que perdia a conta das bebidas, dançava qualquer música e sorria. Batom borrado, cabelo despenteado, sem sapatos. Girava até ficar tonta e gargalhava, todo mundo ao seu redor se encantava e dizia “eu nunca conheci alguém como você”. E eu retribuía porque pensava que a troca era sempre verdadeira. Eis que chega uma noite em que meu encanto cessa e me torno cega e surda.

Todos gritam “vai embora enquanto dá tempo”, todos me mostram o reflexo do teu espelho, E jogada no chão estou esperando tudo passar.

Pisar, pisar, pisar. Mas vai passar.

Primeiro

2 jan

Queria que você soubesse o quão fácil é ficar te olhando enquanto você não sabe que eu estou te olhando. O jeito que você sorri enquanto assiste algo que te agrada, a forma que suas mãos se posicionam quando você se sente entediado, a inspiração mais demorada quando você não consegue ficar quieto.

Eu passaria tranquilamente dias e dias assim. Desejando ter cada milímetro teu bem perto de mim. Queria ter a ousadia de te calar com um beijo na frente de todo mundo. E de segurar a sua mão e correr por aí. Cair na areia e rolar como crianças. Rir da tua risada porque você ri da minha. Te fazer cócegas já que você não acha graça nas minhas piadas. Te irritar e confessar que teu encanto é o mais lindo do mundo.

Aguentaria os dias de chuva e o calor insuportável, se eu te tivesse do meu lado. Mas não é bem assim, conforme o relógio trabalha, te sinto cada vez mais longe. Sem razão ou explicação. Tenho medo de um dia te encontrar e não te reconhecer. Eu gosto tanto de você. Eu gostei tanto de você, no dia em que a única necessidade era causar uma boa impressão. Eu perco o fôlego com a tua presença da mesma maneira que você perde o ar quando me cheira. Eu esqueço o mundo quando tu me beija. Por que só tu me beija? Por que eu não tenho coragem de te beijar?

Deve ser o medo das outras bocas que já o fazem. As outras mãos que te seguram e percorrem o teu corpo, entre diversas juras regadas à álcool e cigarros. Ela gosta da sua banda favorita. Ela não sou eu. Ela é corajosa, diz pra todo mundo que você é o canalha que sempre quis. Enquanto eu escrevo textos implorando para que um dia eu seja que nem ela antes de te perder de novo.

Ela é plural porque é mais de uma. É tão óbvio que você não se contenta com um só alguém. Tenho noção da minha insuficiência. Eu sou pouco. E do meu pouco eu teria muito pra te dar. Eu até me ofereceria pra cantar a sua música favorita porque, de fato, o registro do teu sorriso e expressão de surpresa é tão memorável quanto o dia em que eu chorei por você. Mas, assim, se desde o início você já sabia que não daria em nada, por que tentou me prender?

As tuas mentiras que me adormeciam hoje me tiram o sono. Coleciono madrugas mal dormidas por tua culpa. Imaginando quem seria a vítima do dia e se num futuro próximo eu seria mais uma vez escolhida. Você avisa que vai embora e quando eu resolvo aceitar, você volta. Entra na minha casa e tira tudo do lugar. Para depois eu ter que reorganizar tudo sozinha. Você só sabe me deixar sozinha. Me oferece companhia com prazo de validade.

Guri, algum dia tu vai me contar a sua verdade?