Arquivo | fevereiro, 2014

Vale Nevado

25 fev

Nós fomos, certamente, feitos para dar errado.

Essas seriam as últimas palavras direcionadas aos teus olhos, que se tornam vidrados ao encontrar os meus. Tenho de volta a malícia que me arrancou naquela noite chuvosa e de embriaguez. Tenho, também, as garrafas vazias em cima da pia e por vezes algumas cinzas que fiquei com preguiça de varrer.

É óbvio que preferimos deixar tudo embaixo do tapete e ativar a função soneca do despertador. E reclamar do ônibus cheio e dizer pro chefe que o trânsito estava insuportável. Um dia foi verdade. Agora é só rotina. Todo dia a mesma coisa, o meu silêncio eternizado na tua pele sem você perceber.

Queria que soubesse que eu gostei tanto de você, mas tanto, tanto, tanto, que esse sentimento explodiu, se espalhou e hoje não sobrou mais nada. Não se culpe por eu ter me transformado em pedra, a verdade é que eu sempre fui assim. Não gosto, não quero, não me importo e quero saber quando é a próxima festa. Sou fria, sou grossa, ignoro, será que você pode agir com um pouco mais de pressa? Me liga, implora, me abraça e me deixa. Te bato, te xingo, eu choro, tu volta.

Sabendo que por mais potente que seja o frio, o gelo ainda há de derreter. Deixo de ser a pedra, pra ser água. E isso, sim, é culpa tua. É culpa tua todas essas palavras dançando na minha língua, é culpa tua os meus lábios entreabertos quando você se aproxima, é culpa tua – também – eu não conseguir sair da sua rua. É culpa sua eu estar na tua.

Estou na tua poesia escondida em qualquer guardanapo, estou na tua voz rouca, estou ficando louca.

Mas antes que você se preocupe, estou muito bem, obrigada.

Meu lugar é na geladeira.

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