Arquivo | outubro, 2014

Você se mostrar vivo, me mata

28 out

Eu estava dormindo e você sussurrou no meu ouvido, quase inaudível: voltei. E ficou deitado do meu lado, como era frequente um tempo atrás. Senti o seu cheiro, senti o desejo. Como quem ganha um livro novo, mas eu já sabia a história.

Você reclamou que eu estava quieta demais e eu só dava risada. Queria que eu falasse o que? Prazer em te rever? Você veio para bagunçar a minha vida. Teve a ousadia de reclamar que eu troquei a ordem dos quadros e que não havia vinho na geladeira. Espera aí? Jura que é assim? Só porque não troquei a fechadura, acha que ainda é de casa?

E que azar o meu, naquela noite eu dormia com a tua camiseta. Justo naquela noite. Eu tinha vontade de perguntar o que você tava fazendo da vida e porque resolveu reaparecer. Então lembrei que você sempre fazia isso, você queria se mostrar vivo. Não queria e nunca quis nada comigo.

A única motivação que você tem é de me manter presa. Acontece que, meu bem, eu não sou a tua presa, você não pode me caçar. Sou livre, sou livraria, você só pode me ler. Olha pra mim, de verdade, você tem algo a dizer? Eu queria te ouvir. Eu sempre quis te ouvir. Eu sempre tive que falar. Eu sempre tive que te decifrar.

Não me atrase, daqui a pouco chega o rapaz da mudança, não é mais aqui que eu quero estar. Eu vou em busca de um novo lar. O som da buzina me avisando que o caminhão está me esperando. Diversas caixas cheias de lembranças, mas você continua sendo a pior delas.

Eu nunca quis te colocar numa caixa, eu nunca quis que você fosse uma lembrança. Agora, com licença, estou mudando de endereço e preciso levar esse espelho, eu preciso refletir. Se tua casa não é teu lar, é por isso que você apareceu aqui?

Eu estava dormindo e foi um sonho lindo.

Quero-te

16 out

Quero te fazer lembrar
Do meu batom vermelho no seu pescoço
Do nosso enrosco
Do meu gosto

Quero te fazer sentir
Os teus dedos brincando no meu cabelo
Aquela mistura de vontade e medo
O nosso primeiro beijo

Quero te fazer pensar
Nas vezes em que nos frustramos
Nos desencontros que criamos
Nas mentiras que contamos
No rumo que tomamos

Quero te fazer tirar
Esse cigarro da sua boca
Essas palavras da minha boca
A tua roupa

Ao ataque

6 out

Luzes piscando, você só via minha silhueta. Eu dançava para mim mesma. Fechava os olhos e dublava minha canção favorita. Percebi que você me olhava e eu ri de canto, você achava que eu te chamava, mas na verdade eu pensava ‘e aqui vamos nós… de novo!”. Sumi da tua vista.

Copo atrás de copo, a morte percorrendo as minhas veias. Cigarro atrás de cigarro, a morte percorrendo o teu pulmão. Aquela fumaça que causou o nosso reencontro, você disse “oi” e eu só dei uma risada. Você deveria estar se questionando quem era aquela louca que te seduzia e fugia. Aquela louca fazia isso com todos. Não que fosse intencional, é que ela é assim. Toda torta mas segura de si. Inventava histórias para não ser encontrada, falando assim até parece uma criminosa. De qualquer forma, ela não queria ser presa.

Ela? Eu? Nós? Te confundi do jeito que eu queria. Estava com uma vítima apoiada no meu pescoço, não prestava atenção em uma vírgula sequer. Eu gosto tanto daquele lugar e aquele lugar gosta tanto de mim. Sinto receber o seu convite para voltar. Você parou na minha frente e desnorteou o meu ataque.

Sentia as suas mãos me segurando e eu apertava os olhos querendo voltar para a realidade. Eu te beijei. Te beijei com letras garrafais. O encontro perfeito das nossas línguas me deixou a dúvida: quem de nós foi a vítima? E nos afastávamos da saída, longe de querer ir embora.

Embalados por qualquer música que fazia o ambiente, que se esvaziava enquanto corriam os minutos. Só não corriam mais que teus dedos presos no meu cabelo. Em contrapartida eu tinha teus lábios presos nos meus. Aquela sensação de desespero que eram assinados com suspiros fugitivos.

Tuas peças caíam como as minhas mentiras. Nós não tínhamos mais nada além de nós mesmos. Nos reencontramos de novo. Dessa vez no silêncio. Misturamos nosso suor. Misturamos nossas fantasias. Quem diria? Adormeci no teu peito enquanto você me iludia.

Não demorou muito e o Sol invadiu as frestas da janela, era a hora de ir embora. Me vesti com a sua roupa enquanto você se vestia com as minhas mentiras.

P.S: Você ficava ainda mais lindo quando ria.