Arquivo | julho, 2017

Selva

4 jul

Ser amável não é amar.

Eu queria ter descoberto isso antes de aprender a usar o saca-rolhas. O vinho teria outro sabor.

Você se lembra de quando me conheceu? Mentiria se dissesse que sim. Porque quando eu me apresentei, você não estava mais lá. Quando eu me despi e mostrei todas as minhas tatuagens, cicatrizes, medos e celulites – que é difícil não enxergar como defeito – você estava ocupado demais montando um quebra-cabeça.

Ainda que eu tenha te pedido para não ter medo dos meus medos e você tenha me garantido que não me machucaria. Como esperar isso de alguém que não tira a arma do bolso? Você atirou em mim. Fugiu sem prestar socorro.

O tempo em que fiquei desfalecida e o meu coração ameaçou não voltar. Eu não sentia nada. Isso foi horrível. Ainda é. Não é a primeira vez que eu afirmo que sou a racional mais emocional e vice-versa, então, ficar sem lógica me quebra as pernas. Só que tudo o que eu mais queria era sair dali.

Esse caminho me persegue aonde quer que eu vá. Não tinha ideia da quantidade de correntes que você deixou em mim enquanto eu dormia. Pior ainda é pensar na possibilidade de tu ter deixado alguma chave na tua gaveta. Por que você quer me ver presa?

Enquanto você me solta aos poucos, eu não tenho tempo hábil para reaprender a voar. Cada penhasco que me chama, atiçando a minha vontade de me jogar. Só mais um passo. E descubro que meus tornozelos estão presos. Por que você quer me manter presa?

Tuas palavras contraditórias sempre reafirmaram a ideia de que existiam dois mundos. Eu, tu e o mundo e eu e tu contra o mundo. Entre quatro paredes cabe mais gente e no teu coração também. Tu me transparece asfixia e isso não me dá tesão. Eu sempre fui a tua presa.

Caçador, o teu silêncio não é segredo. É pesadelo e é desamor.

Tua armadilha foi ser tão amável e nunca amar.

Eu caí.

Quero levantar.

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