Amores de hoje

2 out

Amores de hoje são apenas de hoje. Não espere que um amor de hoje ainda exista amanhã. De preferência, não pergunte nada para a outra pessoa, descubra por si só. Não conversem, se beijem, aproveitem melhor o tempo. Ninguém quer mesmo saber se está tudo bem.

Seja intenso. Pessoas intensas chamam a atenção. Se entregue. Mas, assim, se entregue por inteiro, sabe? A probabilidade de vocês nunca mais se verem é imensa, então, sem neuras, a gente mal se lembra o que almoçou ontem. Passe o número certo ou errado, não importa, ninguém vai ligar.

Ninguém.

Vai.

Ligar.

Mas no Facebook não tem problema, né? Ontem mesmo o zelador me enviou uma solicitação de amizade só porque eu sou a única que dá bom dia antes de sair para trabalhar. Legal essa música que você compartilhou… não acredito que você também gosta de Clube da Luta, eu sou tão Marla Singer! Seu cabelo cresce rápido, hein?

E assim vou, cuidando da tua vida como se ela fizesse parte da minha. Tudo porque te amei hoje.

Perceba minha existência quando curto tuas coisas, sinta as indiretas quando escrevo, olha só como a minha vida social é agitada! Plena terça e já tô na rua.

Aquela sensação de ser o incômodo em forma humana e passar vontade. Eu já perdi as contas de quantos “ois” morreram na ponta da minha língua. E eu nunca soube de você. São esses amores de hoje que mais parecem bombas-relógio e quando tudo explode, sempre sobra pra alguém recolher os cacos.

Porque amores de hoje são apenas de hoje, mas às vezes a noite passa tão depressa que já estamos no amanhã.

Te vejo hoje?

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Equação

17 ago

Nós temos um silêncio nosso.

Eu temo o silêncio teu.

Você sabe que eu gosto de jogar. Tenho atração por códigos e meu combustível é a adrenalina. Mas você me fez cair no meu próprio jogo. Não sei se é timidez ou se é indiferença e eu me importo, embora não pareça. Te permiti me ver sóbria, tampouco eu estava pronta pra isso. Sentia falta de um copo na mão, um dose de pretexto para falar besteira, um gole de permissão para uma sequência de erros.

Desde o início eu tive o teu silêncio e ele nunca foi o mesmo. O que você quer me dizer quando fica quieto me olhando? O que você me contou quando fica quieto de olhos fechados? O que você pretende falar quando fica quieto sentado no sofá? Sai a adrenalina e entra a agonia.

Expectativa.

– O que você tem?

– Nada.

Realidade.

– O que a gente tem?

– Nada.

Interpretar o teu silêncio me enlouquece. Mas você me beija com a mesma pressa que eu tenho quando falo. E da mesma maneira que eu sempre tenho que repetir o que acabei de dizer, você tem que me beijar de novo para tentar me fazer entender. Eu entro na tua, eu entro no teu jogo. Você conversa com o corpo. Passo meus pés nos teus, você retribuiu fazendo o mesmo. Reciprocidade? Deito no seu ombro, você me abraça. Devo continuar? Abro a mão, você a segura. Iniciativa? Minha angústia estava no olhar. Só que você estava de olhos fechados.

O nosso diálogo alterna-se entre suspiros, gemidos e inspirações profundas.

Meu pessimismo me leva a crer que estou fazendo algo errado e que todas as noites são as nossas últimas noites. Eu te encontro me preparando para a despedida, nisso você vira:

– Nos vemos de novo?

Não me resta outra saída além de esperar.

Sobre fim sem começo

6 jul

Quebrei teu coração.

Quebrei teu coração sem dó, mas mesmo assim peço desculpas. Eu não estou num momento bom, sabe? Quer dizer, eu nunca estive num momento bom. E o teu foi só mais um no meio de mais um monte. Me acostumei com os cacos que eu deixo no meio do caminho. Eu não sei o que eu quero, mas eu sei o que eu não quero e, no caso, não te queria.

Perdeu a graça, eu não ria mais. Eu estava de saco cheio e você percebeu. O pânico começou quando eu não encontrava nenhum lugar que me deixasse confortável. Música alta não agradava, mas também não queria ficar sossegada num barzinho. ‘Cinema?’, você sugeria, só que eu não tinha a mínima vontade de te encontrar.  Acontece que nesse meio tempo eu me perdi.

A incrível caça de procurar algo que não se tem ideia. O batom vermelho ofuscava as olheiras, então tava tudo bem. Vítima era o que não faltava. Chuta o primeiro, marca o segundo, mata o terceiro. Mais uma terça-feira normal. No dia seguinte me abasteço com mais álcool e me torno o carro mais veloz. De curvas eu entendo e as regras eu não respeito. Você estava em casa, nunca se incomodou com as minhas saídas desde que eu não saísse de ti. Mas aconteceu.

Quarta-feira.

Estávamos na metade e eu não via a hora de chegar no fim.

A fumaça do cigarro proibido entreabria os meus lábios e eu não queria perder tempo dormindo. Merda. O despertador tocou, como ter um bom dia assim? Você faz planos pro fim de semana. Eu faço planos pro fim.

– Que tal o parque?

– (Mas eu não me divirto mais). Pode ser.

– Ah, acho que você não gostou da ideia. Bar?

– (De porre já basta você). Desde que não seja muito caro.

– Também podemos ficar em casa.

– (Eu na minha e você na sua? Melhor ideia). Ok, eu passo aí umas 20h.

Ironias à parte, você me encontrou na pior fase. Antes fosse o pior dia, era só dormir que passaria. Passei na sua casa, nos beijamos e fui embora enquanto você tomava banho. Mas só de sacanagem deixei meu cheiro no teu travesseiro. Quem sabe eu mude de ideia e volto.

Quebrei teu coração por puro egoísmo.

Cansei de quebrar a cara.

Visita

11 jun

Entra, fica à vontade. Não repara a bagunça, perdi a hora, não ouvi o despertador. Deve ter pizza de ontem na geladeira, pode pegar. Cuidado com o rabo do meu gato! Ahn, vou tomar um banho rápido, pode ficar vendo a TV.

Queria me afogar no teu peito e o máximo que tenho é o chuveiro. A água encharca meus cabelos, respiro fundo, fim do shampoo. Aperta, chacoalha, suga até a última gota. Lavaria a alma se fosse possível. O que você está fazendo? Fico imaginando. Não tenho canal pago, provavelmente deve estar zapeando com aquela cara de que merda eu tô fazendo aqui.

Faço a louca e apareço de toalha ou coloco a camisa da sua banda favorita? Olha as ideias! Estou, de novo, toda juvenil. Porque você veio. Porque você voltou. Voltou por aquela porção de horas que você costuma voltar. Parece que tem tabela pra cumprir e resolve aparecer. Como um ‘oi, eu tô aqui’. Tá aqui mas não está, não é? Ok, camisa de banda.

Lembrei que a camisa era sua, e agora? Melhor não, né? Vai que você pede de volta. Por que você não me pede de volta? Por que você não volta? Ou melhor, por que você volta e eu aceito mesmo sabendo que daqui a pouco você tem que ir? Vestido preto é melhor. Dizem que nunca falha. Encosto na parede do corredor e fico te olhando enquanto você mexe no celular. É claro que você demora pra perceber. Tá aí faz tempo? Não, não, demorei no banho mais do que eu imaginava, desculpa.

Confuso.

Confusa.

Morro de saudades de conversar contigo, mas não quero parecer desesperada. Faz tanto tempo que não conversamos e você sabe que quando eu começo um assunto daqui a pouco estou discutindo se Plutão merece ou não ser chamado de planeta. Não sei roer unha, mas  fico arrancando as cutículas. Você me arranca suspiros. E fica aquele silêncio mortal.

Saudades, você diz. Saudades, eu sinto. Nós nos beijamos como se fosse a última vez porque talvez seja. Acho que é por isso que eu gosto de você. Gosto de quem se entrega. Odeio quem se arrepende da entrega. E sobre isso eu nunca soube de você. Você se arrependeu em alguma das vezes? Em algum momento?

Porque eu faria tudo de novo e não faria nada diferente.

Eu já te conheci sabendo que você seria uma visita.

Terminal

13 maio

Não era pra ser.

Porque se não houver reciprocidade, não quero que seja. E da minha parte não há.

O problema não é você, tampouco eu. Não quero um tempo ou qualquer coisa que você tenha visto em alguma novela. A cerveja tava boa e o papo também. Mas não foi dessa vez e não vai ser da próxima. Sua jaqueta ficou bem em mim e eu achava engraçado quando você aparecia na porta do meu trabalho, mas eu dispenso, se for o caso.

Sabe quando não rola? É mais ou menos isso. Não rolou. Ficamos parados no mesmo lugar. Ou talvez você tenha ficado parado no mesmo lugar enquanto eu prosseguia com a minha missão. Não vejo você do meu lado e isso não é um suspiro de saudade, pelo contrário, de maneira crua, nunca senti a falta tua.

Você vai dizer que eu sou insensível e uma vadia. Enquanto eu viro mais um shot de tequila. Mesmo assim você vai tentar me beijar e talvez eu te beije por beijar e isso é tão horrível. O beijo pelo beijo não deveria ser considerado beijo. Você entende? Que eu estava no piloto automático e só descobri agora?

É como se eu estivesse me forçando, “dessa vez vai”, eles disseram. Só que eu apenas não quero. Ponto. É tão estranho assim? Estou num momento meu, estou num momento de mim.

Esse momento não tem prazo de validade ao contrário da gente que já venceu.

Ou perdeu.

Entenda como quiser.

Uma noite passageira que entrou por engano no seu avião.

O cigarro

14 abr

O cigarro

Inteiro e intacto

Põe fogo

Aos poucos

Aos pedaços

Fumaça

Forte

Cinza

Fim do dia.

Feiticeira

10 abr

É fácil se apaixonar por ela.

Ela é toda assim, sedutora, confiante e cretina. Cretina porque sabe que todo mundo tá olhando e ela provoca, um, dois, três ao mesmo tempo. E de repente deixa todo mundo falando sozinho porque precisa reabastecer o copo. Ela sabe todas as músicas ou finge que sabe só para fechar os olhos e balançar a cabeça. Tudo o o que eu queria era chamá-la para dançar.

Mas eu fico só olhando, porque é isso que eles fazem. De vez em quando alguém toma um gole de coragem e pede o isqueiro emprestado.

– Fogo?

– Tenho sempre.

E dá aquela gargalhada curta, direta e fatal. É difícil não querer beijá-la quando ela fixa os olhos no meu e fica com os lábios entreabertos como se quisesse me chamar. Ela tem todo mundo, ela não tem ninguém.

Mas é difícil amá-la.

É difícil porque ela tem isso de ser do mundo, de ser o que quer, de ser. Ela tem uma auto liberdade de dar inveja mas ao mesmo tempo é tão difícil de lidar. Essa certeza de que ela nunca vai ser minha. Porque ela grita que ela é dela, apenas dela e não de quem quer.

Queria que ela fosse minha, que pensasse (só em mim) todos os dias, que precisasse de mim. Mas não vai ser dessa vez, tampouco na próxima. Acho que não é pra ser. Acho muitas coisas, ela não me dá certeza de nada. Ou melhor, praticamente nada. Até porque eu tenho certeza de que é só a ver para querer tudo de novo. O cheiro, o beijo e o corpo.

Ela é o demônio do meu paraíso particular.